Violência de gênero: o inimigo oculto

Um dos maiores inimigo da luta das mulheres pelo fim da violência de gênero é um inimigo escondido, manipulador e sorrateiro, que escapa à vista da maioria: é a mulher agressora e moralmente assediadora.
Já se perguntou porque uma boa parte dos homens adultos não violentos e não agressores, ficam com um pé-atrás quando há um caso de violência contra a mulher ? Porque ele não sai logo em defesa da vítima que muitas vezes se apresenta de forma que realmente causa pena ? Porque ele hesita ?
É porque ele sabe de algumas coisas, mas não pode dizer. Ele sabe qual será a reação, então se cala. Mas ele sabe do nível de agressão e manipulação que algumas mulheres são capazes. Eles sabem que algumas mulheres se utilizam do fato de que a violência de gênero ser perpetrada principalmente por homens para poder agredir a seu bel prazer. Porque sabem que se o homem reagir ela pode usar a condenação geral sem provas a seu favor. Sabem que as pessoas são movidas não pela justiça e sim pela revolta. E qualquer coisa que cause revolta é o suficiente para ter as pessoas do seu lado. E essa coisa não necessita ser verdade.
Esses homens não-agressores sabem também que um homem que em um momento de raiva motivada por contínuas agressões, se descontrole, terá o mundo inteiro contra ele. E precisam de provas contundentes que a mulher agredida é realmente vítima como diz.
O problema é que a maioria das mulheres agredidas é realmente vítima. Mas o fato de existirem mulheres que manipulam, provocam, gritam e agridem o homem até ele se descontrolar é que cria essa hesitação em muitos homens e até em algumas mulheres.
Muitos homens e mulheres sabem que um caso de agressão não teria acontecido se a mulher tivesse agido de uma forma minimamente sã.
E quantos e quantos homens olham para antigos relacionamentos seus e pensam: “poderia ter sido eu se continuasse naquela relação”.
É por isso que eu não gosto da idéia de “círculo de mulheres”. Porque coisas como essas não aparecem nas conversas. Essas coisas só seriam ditas por homens a mulheres que realmente quisessem ouvir sem julgamentos como um homem realmente se sente. E tem que estar disposta ao devido “mea culpa”.
Não estou com este texto desculpando o machismo ou vitimizando os homens, ou querendo arrumar desculpa pra agressor. Estou trazendo à tona um aspecto que não estou vendo ser falado nesse importante debate. Um detalhe que é extremamente importante na luta pela igualdade de gênero.
Um agressor precisa pagar pelo que fez. Seja homem ou mulher. Mas eu gostaria de ver a agressão e manipulação feminina ser exposta com a mesma paixão que a agressão masculina é exposta. Mas também entendo que ela é realmente em menor número.
Mas procure se imaginar na situação de um homem não-agressor nessa situação. O que você faria ? E não adianta me vir com aquele papo simplista de “saia dessa relação”. Pessoas têm dificuldades em “sair da relação”. O que precisamos todos é de conversar francamente sobre nossos problemas. Precisamos conversar JUNTOS. Homens e mulheres tendo conversas francas e curadoras. E não adianta vir com 10 pedras na mão. Homens precisam ouvir o que as mulheres estão dizendo, mas as mulheres também têm que ouvir o que homens equilibrados e com bons valores têm a dizer.
Separar as conversas por gênero não vai adiantar. Só vai polarizar ainda mais o debate porque homens e mulheres vão continuar em suas bolhas de pensamento. Precisamos é de círculos de cura mistos, unidos, humanos, onde possamos falar juntos de nossas fraquezas.
E por favor trate bem seu companheiro ou companheira.

Devido à natureza polêmica desse texto e para conservar a tranquilidade dos leitores, os comentários do mesmo foram desativados. Apenas reflita a respeito.

Além do óbvio remodelado

Caros leitores,

De tempos em tempos o universo conspira para que as coisas se renovem. Desta vez o universo fez isso na forma de um hacker que invadiu meu antigo servidor e de um péssimo serviço por parte do provedor.
Como sempre as renovações são sempre boas. Permitiu que eu fosse obrigado a remodelar todo o site e dar uma cara mais moderninha pra ele.
Espero que gostem do novo Além do Óbvio.

Por favor relatem qualquer problema no site no meu email: nelson777@gmail.com

Carta à coroa por ocasião da perda do príncipe herdeiro

Atualmente ainda há quem defenda a monarquia. Em alguns países ainda existem reis, ainda existe quem se considere “nobre” ou “bem-nascido”. Na maioria dos casos, estas famílias não passam de caros bibelôs de luxo pagos pelo contribuinte sem poder real. Imaginemos um reino moderno, no séc. XXI onde ocorreu a morte do príncipe herdeiro. Esta é uma hipotética carta de um homem comum à coroa por ocasião deste acontecimento.

A vós senhores, que ainda ostentais tão ridículos títulos a este tempo, eu vos digo: a dor a é mesma. A dor é a mesma!
Quantas tragédias, quantas mortes, quão ridículo aos olhos de tantos ainda haveis de passar até te dares conta que teu tempo passou!
Joguem fora seus títulos! Joguem fora seus luxos. Abram mão de suas tão babilônicas vaidades. Há muito a Babilônia se foi.
Teu poder à muito se esvaiu, teus exércitos, outrora grandes, hoje não passam de enfeites pavoneantes.
Aproveita o tempo com teus filhos enquanto ainda os tens!
Que te valem teus luxos agora ? Não os trocarias todo p or veres teu príncipe voltar ?
Não percebes ? A dor é a mesma. Para mim e para ti. Sem distinções, sem títulos, sem superioridades, sem maior ou menor, sem reis, rainhas, dons, príncipes ou princesas e tão somente a singeleza do tu e eu.
Já passou o tempo desses títulos ó majestades. Já se foram as carruagens, restando apenas as abóboras.
Está na hora de acordar. Está na hora de verdes que sois tudo o que sempre foste… eu e tu.
Vem… que seja um novo tempo. Que sejamos iguais e que por isso possamos permitir que o outro veja o quanto sofremos, ao invés de novamente ter de nos esconder atrás de nossa vaidade, para que ela e só ela possa prevalecer, enquanto nosso espírito esmorece mais e mais atrás das máscaras.
Não mais! Afasta-te ó vaidade! Arreda-te! Ó majestades deixai-a ir! Deixai cair as máscaras! Eu sei que a dor é a mesma. Tu também sabes. Então porque haveríamos de carregar ainda a vaidade conosco, já que temos que carregar tão pesado fardo ? Deixai-a ir majestades! Ela já recebeu seu quinhão.
Sois iguais a mim majestades. Bem o sabes. Apenas por tempo demais tentaste enganar a mim, mas principalmente a ti. Já é tempo majestades. É tempo de virdes até mim. Para que servem teus títulos ? Os luxos e as poses ? Se no final tudo o que precisamos é somente entender que não existem bem-nascidos e plebeus, mas tão somente o tu e eu.
Venham comigo majestades. Vamos descobrir um novo dia. Vamos descobrir um novo tempo onde possamos descobrir juntos um meio para que nossos filhos morram majestades! Ao invés de perder tempos com luxos e vaidades. A vaidade só nos distrai. Faz com que percamos tempo e oportunidades de conhecer pessoas simples, lindas e leves que a vaidade corruptivamente acha inferiores. Eles são iguais majestades! Talvez menos vaidosos. Talvez com menos luxos. Talvez com menos poses. Talvez tenham menos dificuldades em pronunciar seus próprios nomes. Quem sabe talvez mais produtivos majestades.
MAS EU VOS DIGO MAJESTADES! A DOR É A MESMA! A DOR É A MESMA!

Os danos colaterais da queda do machismo

O debate a respeito do machismo anda esquentando esses dias. Bom isso. Tá mais que na hora das relações homem-mulher amadurecerem. Não é aceitável que uma mulher seja obrigada a andar permanentemente com medo e nojo ao mesmo tempo apenas por sair de casa. Não é aceitável que uma mulher seja compreendida como inferior ou como objeto. Cantadas a desconhecidas na rua não são nada éticas. Ter preconceitos como achar que mulher é mais emocional, ou que o desejo delas é diferente é só ingenuidade mesmo.
Mulheres apenas procuraram meios de se adaptar a uma sociedade terrivelmente atrasada e machista. Tá na hora disso mudar. A luta das mulheres deve ser apoiada, fortalecida e como homens devemos procurar tratar a mulher de igual pra igual, tendo a maturidade de reconhecer a igualdade que ela sempre teve.
Mas em épocas de transições culturais, sempre há excessos. É normal. É o pêndulo indo pro lado contrário com velocidade maior, porque ele esticou muito tempo pro outro lado.
São vários problemas.
Em primeiro lugar os homens que assim agem não são a totalidade. Mas homens que não participam desse contexto são muitas vezes agredidos e neles colocada a pecha de machista por um erros simples, fruto do ambiente machista em que foram criados.
Em segundo lugar por causa desse mesmo ambiente, muitas mulheres são sim machistas e anti-éticas. Se nenhuma mulher aceitasse se relacionar com homens comprometidos, não haveriam traições. Se mulheres educassem seus filhos para não serem machistas, não haveriam machistas. Todo machista tem mãe. E uma mãe machista ou que tolera o machismo do filho.
Outro problema é o uso de critérios duplos para os homens. Se um homem olha para uma mulher na rua sendo comprometido, mesmo que não aja além disso, ele é condenado. Mas ninguém imagina se ele se esforça para se libertar das amarras do ambiente que nasceu. Não se vê que apesar de olhar muitos não agem. Porquê então olham ? Porque assim foram criados e esse comportamento reforçado ao longo dos anos. Já o homem tem que compreender que a mulher tenha um comportamento agressivo em certa parte do mês. Tem que compreender que ela fique de mau humor por qualquer coisa. Tem que compreender agressão. Ás vezes física. Tem que compreender depressão. Tem que compreender desiquilíbrios. Tem que compreender “coisas de mulher”.
Mas homens também são humanos. Também têm sentimentos e conflitos internos. Também não se compreendem em muitos casos.
Um caso a se pensar é: se aquele homem que está naquela situação fosse seu filho, como você lidaria com a situação ? Será que existem mesmo monstros ? Será que aquela pessoa merece tanto antagonismo porque ainda não conseguiu evoluir o suficiente ou porque não recebeu informação suficiente pra evoluir ? É realmente culpa dele ? Ou é o jeito que as coisas sempre foram ? Dá certo lutar desse jeito ? Todo mundo precisa ser tão duro assim ? O mesmo nível de dureza que você usar com alguém, é o nível de dureza que você receberá.
O que quero dizer é: se um homem está em uma situação machista, deve receber o mesmo nível de compreensão que você quiser ter com as suas falhas. Não se iluda amiga leitora, elas são tantas e tão grandes quanto as de qualquer homem machista. Mas isso não diminui o seu valor, nem o valor dele. As qualidades sempre brilham em nós. São apenas aspectos que todos nós temos que trabalhar e precisamos de alguém que nos ensine um novo jeito de viver, se relacionar e se harmonizar para podermos construir juntos um novo mundo. Mas é juntos. Não é feministas contra machista e vice-versa. É aprender a se compreender e se harmonizar.

O limite da arte

Recentemente alguns espetáculos que foram encenados foram considerados particularmente extremos por alguns. Baseado nisso fiquei aqui refletindo a respeito do limite da arte. Este é obviamente um assunto muito controverso e difícil porque arte é um dos conceitos mais subjetivos que existem. Devido ao seu nível de subjetividade ele é compreendido das formas mais diversas pelas pessoas mais diversas. Então é sempre difícil chegar a um acordo a respeito dos muitos conceitos que circundam este tema.
Quando pensamos em arte pensamos em quadros, esculturas, peças de teatro, cinema, ópera, vídeo, instalações, poesia, literatura, design, arquitetura… tantas e tão diversas coisas que falar de “limite para a arte” soa meio estapafúrdio, meio que falta de entendimento do conceito “arte”.
É justamente esse o problema. A subjetivação é tanta que não se pode chegar a um consenso do que é realmente arte. Não há como traçar uma linha fixa onde se defina claramente isto é arte e isto não é arte. Essa linha é muito borrada e muita coisa passa de um lado para o outro simplesmente pelo olhar de quem vê.
Então eu posso colocar um papel em cima de uma mesa e dizer que isso é arte ? Pra mim isto parece ser um pouco de exagero. Mas se eu dobrar o papel e fizer um origami, já é arte. Uma cortina na parede pode ser considerada arte ? Um pneu no chão ? Esperar o ônibus pode ser arte ? Talvez… se fizermos alguma intervenção. Talvez possa. Que intervenção ? Assalto também é intervenção. Então assalto é arte ? Quem sabe aparece um para dizer que sim. Mas se você disser que não, então esse é o limite da arte ? Não causar perda ao outro ? O que os masoquistas diriam disso ? Arte chega para debater questões ? Então se eu fizer uma reunião lá em casa para debater algo isso é arte ? Só se estiver no formato de uma peça de teatro ? Não ? tem limite então ? Arte então é o que nos traz contemplação, reflexão ? Talvez arte seja algo limiar como o fogo… algo no meio do caminho entre o definido e o indefinido, entre o real e o imaginário. Algo que nasceu para ser uma linha do horizonte imaginária que se move mais e mais para longe ao procurarmos alcançá-la e tem como objetivo final somente a nossa própria evolução e a ampliação sensorial, mental, sentimental, espiritual.
Mas essa linha excessivamente ‘borrada’ ao redor da definição de arte causa um problema sério: como valorizar talentos extraordinários ? Como reconhecê-los ? Com um conceito vago tudo se nivela. Alguém que não tenha talento para cantar pode procurar outras formas de arte para se expressar. Então todos somos “artistas” ? Mas aí caímos em outro problema, como reconhecer um charlatão ? Aquele que quer apenas se aproveitar dessa subjetividade para lucrar. Ele pode simplesmente inventar uma historinha para se justificar e pronto: é arte. É justo dar a ele esta liberdade ? É justo que um Michelangelo ou um Rodin sejam comparados em grau de importância a alguém que fez um origami que aprendeu na internet se ele disser por exemplo que aquele avião de papel que acabou de fazer e colocar em cima da mesa é “uma instalação para trazer a reflexão do sentido de voar”. Mas tudo é arte e arte não tem limite. Então, por esse conceito sim… os dois têm a mesma importância.
E a qualidade onde fica ? Ela é obrigatoriamente desassociada da arte ? Arte não tem realmente hierarquia ?
O que estou querendo demonstrar é que embora seja difícil de admitir para muitos especialmente para os menos talentosos que buscam explicações rebuscadas para sua falta de talento, arte tem sim limite. Arte precisa ser estudada. Não é só chegar e fazer qualquer coisa. Vc precisa conhecer quem veio antes de você. Precisa conhecer a técnica ou inventar uma, mas sabendo que aquilo que foi desenvolvido e aprimorado durante muito tempo, ao custo de muito sacrifício e dedicação tem sim mais valor do que aquilo que você acabou de inventar.
Porque se não for assim o que resta ? Decadência. Se não for exigido estudo, qualidade, refino e aceitarmos que absolutamente qualquer coisa é arte, qualquer coisa é válida, o que acontece é que um talento extraordinário não teria qualquer incentivo para se desenvolver. O caminho é para cima. Devemos recusar a espiral descendente em prol da ascendente.
Qualidade é imprescindível. Talento é insubstituível. A arte tem sim limite.

Obediência

Uma palavra que causa arrepios em muita gente: obediência. Parece que só em pronunciá-la já levantamos os escudos.
Acredito que falta consciência do que é “obedecer”.
Repare em primeiro lugar que a palavra por si não está dizendo que a obediência significa submissão à vontade do outro. Você pode por exemplo obedecer ao plano que você mesmo estabeleceu pra si. Pode obedecer sua consciência. Pode obedecer sua moral. Pode obedecer a um estudo que você mesmo fez a respeito de algo.
Mas também pode obedecer a outra pessoa. Não necessariamente isso é sempre mau. Se essa pessoa for de sua confiança e quiser o seu bem isso é inclusive muito bom pra você. Muitas vezes você pode não conhecer alguma coisa e buscar conselho de quem conhece e obedecê-lo pode ser a melhor coisa a fazer.
Mas também tem o caso que alguém querer submeter o outro pra dominar, manipular, subjugar. Nesse caso a desobediência obviamente se justifica. Mas quis mostrar que esse é apenas uma forma corrupta de obediência e não a única, como muitas vezes pode parecer a alguns.
Outra coisa que quero chamar à atenção é que mesmo o mais rebelde dos seres obedece continuadamente, 24/7, sem paradas, dormindo ou acordado. Provo.
A ideia da não-obediência é que você toma uma decisão consciente, livre, de acordo com a sua “vontade”.
Vamos dissecar isso um pouco. O que é “vontade” ? Quantas vezes você tomou uma decisão realmente “consciente” ? Você “teve vontade” de comer um sorvete, “teve vontade” de “trabalhar com este ou aquele tema”, “se sentiu atraído” por esta ou aquela pessoa. Quantas destas coisas foram “conscientes” ? Será que você pode realmente dizer que você tomou uma decisão consciente de sentir isso ou aquilo ? Ou de ter esta ou aquela vontade ? Ou será que você sentiu algo e depois agiu porque sentiu esse algo ? Você tem realmente controle a respeito desse sentir ? Pode deixar de ter vontade de alguma coisa ? Até pode, mas tem que segurar muito. Se for um vício muitas vezes tem que fazer um esforço enorme pra se libertar dele se conseguir.
Então você obedece continuamente. Obedece o que você sente sem qualquer controle de sua vontade.
Você acorda obedecendo. Porque seu corpo não tem mais sono e você tem que sair da cama porque não consegue mais dormir. Depois você obedece ao conhecimento de medicina básico e à convenção social que você tem que tomar um banho ou fazer sua higiene. Depois você obedece sua fome vai tomar café, obedecendo sua cultura de comer o que você foi ensinado a comer no café da manhã, depois você obedece seu corpo que tem alguma necessidade fisiológica, depois você obedece à convenção que você tem que andar vestido, depois você obedece à convenção e à norma social que você precisa estudar ou trabalhar. E assim sucessivamente você segue obedecendo não à sua consciência mas a uma séria de coisas externas ao seu controle consciente. Até que no final do dia você obedece ao sono que está sentindo e dorme e enquanto tá dormindo não tem controle do que você sonha e é obrigado a ver o que quer que seus sonhos tragam a você.
Sua rotina pode ser bem diferente dessa, mas tenho certeza que você pode entender o exemplo que estou dando se não quiser desviar o assunto.
Resumindo: o nível de escolhas conscientes que fazemos ao longo da vida é realmente mínimo. Muito pequeno mesmo. Pense assim: quantas vezes ao longo do dia você realmente analisa com cuidado alguma situação para tomar a melhor decisão ? Muito poucas vezes. E nessas vezes você é influenciado por vontades, sentimentos e externalidades completamente fora do seu controle.
Eu só acredito que um ser humano é realmente desobediente se ele sentir uma necessidade fisiológica e não obedecer a ela conscientemente por um longo período de tempo. Aí eu digo que ele é realmente desobediente.
Então se todos nós obedecemos continuamente, resta a pergunta: se tudo neste mundo necessita de um agente, de uma causa original, de onde se originam e o que são todas essas coisas, essas vontades e desejos que não controlamos ?
A resposta a essa pergunta tem que ser individual, uma resposta de nós para nós mesmos de acordo com nossos conceitos e visões de mundo.
Mas antecipo duas visões que podem auxiliar nessa descoberta: podemos achar que essas vontades inconscientes são nosso próprio eu, que obedecer a elas é obedecer a nós mesmos e por outro lado podemos achar que essas vontades são separadas da nossa identidade.
Se seguirmos pelo primeiro caminho trataremos de satisfazer essas vontades, elas crescerão e elas então controlarão nossa vida, uma vez que acreditamos que elas são nosso verdadeiro eu.
Pelo segundo caminho trataremos de dominá-las reduzi-las e assim ter mais controle e consciência nosso respeito.
Então o que quero demonstrar com isso, é que o caminho da desobediência é o caminho de sua própria escravização. E o caminho da obediência, no sentido consciente acima, é o caminho de nossa libertação e ampliação de consciência.
Então todos nós obedecemos: uns obedecem a suas vontades e desejos e outros a sua consciência e evolução. Mas todos obedecem. Continuamente, sem qualquer pausa e enquanto existirmos.

A resposta

Estou querendo dar minha visão das respostas básicas que a humanidade procura desde que existe. De onde viemos, para onde vamos e o que estamos fazendo aqui. Penso a respeito desse assunto desde que, quando jovem, comecei a buscar, como muitos, o sentido para a vida. Faz uns 30 anos que penso nessa questão que agora escrevo. Não me perguntem as fontes. Nem as saberia citar direito. Mas elas incluem diversas linhas espirituais pelas quais passei, livros que li e principalmente meu pensamento próprio. Vamos lá então.
Tudo o que não é material em nós se resume a 2 coisas: Luz e Força. Jaquim e Boaz.
Luz é entendimento. Compreender as coisas. Saber e entender tudo no Universo. É também o diálogo, entendimento, concórdia que, no fundo, continua sendo compreensão de algo. Neste caso o outro. Luz é também o amor porque este é o sentimento de compreensão máxima. É só pensar no amor de mãe pelo filho e facilmente se compreende que qualquer que seja a situação ela o compreende integralmente.
Para compreendermos melhor o que é luz, perceba que estou falando de entender, saber, comungar em sentido
amplo. Se nos lembrarmos da luz ao passar por um prisma, percebemos que ela é constituída de muitas cores. Então aumentar a luz significa desenvolver nosso conhecimento, nossa percepção, nossa capacidade de se colocar no lugar do outro, nossa perícia na interação com o mundo (no uso de ferramentas, na desenvoltura em navegar em uma certa área do conhecimento, até mesmo na pilotagem de um veículo, esportes, etc), nosso desenvolvimento da capacidade de lidar com suas próprias emoções, nossa capacidade de lidar com situações inesperadas e com o outro, nossa capacidade de liderar, nossa capacidade de compreender as razões do outro entre muitos outros aspectos da vida.
Força é a energia para realizar. O levantar de um tijolo com o qual (com o conhecimento=luz) se constrói uma casa. Força é também o uso da força para resolver uma situação, é a corrente elétrica que gera o campo magnético que permite todas as “maravilhas da tecnologia moderna”, entre outras coisas.
Existe também o conceito de consciência. Consciência é uma quantidade. A quantidade de luz presente em alguma coisa. Luz no sentido acima. Quanto maior a luz presente em “algo”, mais consciente é este “algo”.
Acima desde Universo existe uma região que chamarei de Superuniverso. Este Superuniverso é a própria Consciência em si. Nesta região esta Consciência em estado bruto, com pouca luz, simplesmente existia. Não havia mudança, necessidade de mudança ou vontade de mudar. Em um certo momento no início dos tempos, por um motivo que ignoro, passou a existir nesta região uma Fonte de luz que corresponde ao sentimento de amor. Um entendimento maior, a Luz Universal.
Portanto neste Superuniverso existe uma oposição entre 2 estados. A Luz que tudo sabe, tudo compreende e a parte que simplesmente existe, ou seja, a parte consciente que precede a chegada dessa Fonte de Luz Universal. A Fonte de Luz Universal tem o propósito de ampliar a luz daquela Consciência.
A Fonte de Luz neste propósito de se expandir e para ampliar a luz da Consciência pré-existente comanda a criação de Universos. Faz isso criando uma perturbação nessa região que é inicialmente estática. Esse “comando”, essa “perturbação do estático” é conhecida em muitas culturas como o mantram OM.
Ao comandar essa perturbação cria então uma singularidade. Um ponto que ‘suga’ consciência pra dentro de si e que se expande a ponto de criar um Universo. Esse ponto corresponde à origem do Universo. O Big Bang. O ponto de entrada neste Universo e também o ponto a partir do qual ele se expande.
Uma parte da Consciência Cósmica é sugada para dentro deste Universo. Para que a luz desta parte da Consciência Cósmica seja ampliada é preciso atrito. Movimento. Contato com uma parte diferente de si mesmo. Mas ela, por ser um todo não gera o movimento e o atrito necessário a este processo. Ela é então dividida em incontáveis partes separadas, como que gotas de água em um oceano.
O processo de criação do Universo é também uma materialização. A criação de um “lugar’ onde este processo pode acontecer.
Então, estas “parte separadas” da Grande Consciência são presas em veículos que possibilitam este trabalho que são os corpos dos diversos seres da natureza. Sendo cada “parte separada” uma gota da consciência original.
Assim chegamos a este e outros mundos deste Universo, para conhecer e conviver com outras diferentes partes desta grande Consciência.
Cada ser na natureza possui maior ou menor grau de luz. Nesse processo a luz desses seres vai ampliando, ampliando ao ponto do nível de consciência daquele ser, estar apta a receber o intelecto.
É por isso que seu cachorro parece “quase gente”.
Para que este processo de criação de luz seja obrigatório se criou a natureza e os processos naturais, como a atração, sexo e, no caso humano, casamento (mas os outros seres também têm seus processos). Obrigando assim a convivência de um espírito com o outros (cônjuge e filhos), o que permite a evolução.
A continuidade deste processo, nascendo e morrendo muitas vezes, amplia nossa luz até chegar o dia onde estejamos com uma quantidade de luz suficiente para que ele não seja mais necessário.
Então nos reunificamos à consciência original inserida dentro deste Universo ampliando a luz da mesma.
Quando todos os espíritos chegarem a este grau, o Universo se contrai e a Consciência que aqui está volta ao Superuniverso inicial com muito mais luz do que quando entrou. Assim se dá o que os Hindus chamam da “respiração” de Brahma, com a expansão e a conseqüente contração dos Universos ao longo das eras.
Então, respondendo: de onde viemos: viemos de um superuniverso acima deste. Para onde vamos: voltar pra lá com mais luz do que entramos. Quem somos ? somos parte de um grande Consciência Cósmica presente no Superuniverso e sub-dividida neste Universo. O que estamos fazendo aqui ? ampliando nossa luz para podermos nos reunificar com esta Consciência e retornar ao Superuniverso quando todos tivermos concluído o processo.
Isto explica alguma outras coisas. Explica por exemplo porquê temos tanta dificuldade em nos modificar. É porque o estado natural “anterior” era simplesmente existirmos. E estamos aqui neste Universo pra nos transformar em algo melhor. Isso é lento, doloroso e feito através da convivência com outras pessoas e seres.
Explica porque nos sentimos tão mal com conflitos. É o atrito da resistência à mudança.
Explica porque nos sentimos tão bem quando “deixamos alguma coisa pra lá”. Estamos seguindo o fluxo do nosso destino.
E em especial explica a visão do caminho da mão esquerda (”o mal” por assim dizer). O sentido é dominar para criar um ser acima de toda humanidade, capaz de ter o poder de criar a Apoteose (o domínio completo). Mas pra quê ? Para ter o poder de resistir a essa onda de mudança. Para manter a sua “identidade”. Aquilo que que acham que os define. Para manter tudo igual impedindo esse fluxo de luz e de amor. Por excelência o caminho da mão esquerda é um caminho de estagnação espiritual. O objetivo final é levar todas as partes de volta ao superuniverso iguais ao que entraram. Uma “libertação” por esta visão. Por isso consideram o plano da Divindade uma tirania.
Mas essa vertente é só uma ilusão. Sempre foi só uma ilusão. Ilusão criada pela falta de consciência original. Esse fluxo é imparável, inquebrantável. Brahma não tosse. Ele respira continua e firmemente a longo das eras.
Abrir nosso coração é o único caminho possível. Estamos todos junto até o final dos tempos. É tempo de nos unirmos pra acelerar o processo.

Quem é o melhor escritor ?

Não dá pra responder essa pergunta. Explico: pra você definir o “melhor escritor” precisaria definir os critérios para avaliação de “melhor”. Estes critérios em qualquer forma de arte são completamente subjetivos. Um crítico com grande nível de erudição pode considerar que “melhor” seja um texto mais críptico que demostre grande nível de conhecimento da língua e de recursos ímpares. Um leitor costumeiro pode ter como “melhor” aquilo que lhe provoca maior impacto emocional. Um fã de um certo autor pode estar até inconscientemente tentado a considerar um novo livro dele melhor do que livros de outros autores. “Melhor” é uma palavra que definitivamente não é consenso.
Meu autor predileto é o Michael Ende (alemão), autor do que é pra mim o “melhor” livro que eu já li na vida, a “História sem fim”. Os critérios que eu uso para considerá-lo o melhor livro pra mim são:

-impacto emocional em mim
-grandiosidade
-grau de imaginação do autor em propor algo completamente além da imaginação comum
-um sentido maior na história
-elementos na história que vc só percebe as conexões com muito esforço e com um tanto de conhecimento “não convencional”
-beleza da narrativa
-forma de escrita (“jeito”) do autor que me é bem familiar
-elementos na história onde me encaixo e especialmente meu sentimento se encaixa.
-entre outras coisas

Tudo isso é extremamente pessoal, extremamente subjetivo e extremamente difícil de ser compartilhado por mais alguém, porque é meu… da minha personalidade que mais ninguém tem.
Além disso, hierarquizar a arte é algo perigoso. Há uma linha tênue que separa essa atitude de preconceito. Tá… eu posso sim dizer que Saramago escreve melhor que J. K. Rowling. Mas mesmo em um caso extremo como esse tem um tanto de adolescentes que não concordam comigo. Olhaí eu sendo preconceituoso. Viu como é perigoso ? 😀 Mas eu posso supostamente fazer uma comparação como essa por causa da enorme diferença de nível entre esses dois autores (posso mesmo ? tem mesmo essa diferença de nível ?). Mas se eu comparar Saramago com Guimarães Rosa a coisa já fica mais difícil. Quem está acima ? Não dá pra dizer que qualquer um deles está acima do outro. Qualquer tentativa de fazer isso muito possivelmente cairá em algum tipo de preconceito como acabei de demonstrar.
Não me entendam mal. Não tô querendo comparar coisas medíocres com coisas elevadas. Existe sim um “nível mínimo”. Não dá pra escrever errado sem estar retratando um falar de algum personagem ou alguma outra situação onde isso seja contextual e intencional. Não dá pra ser fútil ou escrever futilidades. Não dá pra ser falacioso ou raso. Fazendo um comparativo de outro tipo de arte, não estou dizendo que funk é comparável a música clássica. Existe sim uma diferença de qualidade grande entre algumas produções. Mas acima de um nível médio pra alto, aí fica bem difícil fazer isso sem cair em preconceitos.
Ainda tem os escritores técnicos, os poetas, os textos jornalísticos, tudo isso é escrita. Se um escritor técnico for excelente em repassar o conhecimento dele isso também não pode ser considerado “melhor” ? Imagina comparar um escritor técnico com um grande autor da literatura. Será que dá pra misturar alhos com bugalhos ? pra mim dá não.
Cada autor tem suas características, suas particularidades, suas belezas, seus regionalismos. E são todos incomparáveis.

Vamos lembrar do filme “Sociedade dos poetas mortos” e seu mote histórico “rasgem a página que diz que a poesia pode ser medida”.

Rótulos

Muitas vezes ouço pessoas reclamando a respeito de rótulos. Muitas pessoas não gostam de ser enquadradas neste ou naquele grupo social. Eu nunca tive problemas com a noção de rótulos. Explico:
Quando estamos aprendendo alguma coisa, muitas vezes utilizamos metáforas. Por exemplo: quando uma criança está aprendendo a somar, é comum usar objetos físicos para aprender a contar, quando um professor está dando aula, muitas vezes ele dá um exemplo quotidiano para podermos entender melhor, ou seja, nossa mente compreende por conexões com conhecimento já existente.
Também quando estamos contando a alguém a respeito de uma experiência que tivemos e que a pessoa não conhece, muitas vezes a vemos dizer algo como “ah é mais ou menos como isso ou aquilo”. Ou seja, ela está procurando em sua mente elementos de comparação para poder compreender melhor.
Algo que desconhecemos completamente e que não é parecido com nada que conhecemos é muito mais difícil de compreender.
Então nada mais que natural que, ao conhecermos alguém, procurar enquadrá-lo em um determinado rótulo: sóbrio, ativo, ansioso, doido, bondoso, violento, gay, competente, autoritário, negro, branco, oriental, pardo, atraente, feio. Seja lá o que for.
Acredito que fazemos isso pelo funcionamento normal da nossa mente de buscar conexões com o conteúdo da nossa memória.
Então o problema não são os rótulos. O problema são os juízos de valores de alguns rótulos para algumas pessoas. Não tem problema algum eu rotular alguém como “branco”, “negro”, “doido’ ou “gay”, se o meu juízo de valor dessas palavras for positivo ou pelo menos neutro.
O que tem problema é a gente viver dentro de um conjunto de rótulos limitado, sem querer expandir o conjunto dos rótulos que conhecemos e rechaçarmos qualquer contato com quem se encaixe em rótulos que ainda não conhecemos e por isso os avaliamos negativamente.
Alguns grupos sociais usam palavras negativas para se referir aos seus membros e o juízo de valor destes rótulos é positivo. Me lembro do caso do termo “maluco’ usado por alguns para brincar com amigos que compartilham de um lado alternativo da vida. Para eles esse termo, longe de significar desvio mental, significa viver uma vida livre e boa. Me lembro também de uma entrevista que vi recentemente de uma pessoa que tinha pra si um rótulo pesadíssimo para a maioria de nós (“satanista”) e ela explicava que não acreditava em seres supra-materiais. Esse rótulo era apenas o de uma figura que representa a liberdade e a luta contra a tirania. Ela mesma acredita na compaixão com todas as pessoas por mais diferentes que sejam. Ou seja, olhando de perto, poucas coisas são realmente “malignas”. Quantos “bandidos” foram capazes de gestos muito nobres ?
Por isso se o conjunto de rótulos que conhecermos for suficientemente grande, com certeza fica mais difícil dar uma conotação negativa a um rótulo específico. No momento que passamos a conhecer alguém que se encaixe em um dos rótulos que desconhecemos ou avaliamos como negativos e vivenciamos a realidade daquela pessoa a impressão negativa se dissolve. Na maioria dos casos só existe rótulo negativo se este for desconhecido para nós. Na imensa maioria das vezes o mal é apenas a ignorância a respeito de algo.
Então não nos preocupemos com rótulos e com a rotulação. Procuremos expandir o nosso conhecimento e o dos que nos rodeiam, procuremos ter e compartilhar vivências, experiências, contato com o diferente. Quanto mais rica for nossa existência e a dos que nos rodeiam, menos rótulos negativos existirão.

Mentiras

Aquele que quiser viver sem mentir tem que responder a seguinte pergunta:

Você foi convidado para ir jantar na casa de alguém com quem não tem muita intimidade e que é importante pra você (seu chefe por exemplo). A pessoa fez a comida com todo carinho. Ao comer você acha a comida muito ruim. Então a pessoa que fez a comida pergunta se está boa. E aí o que você faz ?

Nessa situação, eu minto sem nenhum peso na consciência. E acho que se você responde essa pergunta dizendo que fala a verdade pra ele, você é muito mal-educado.
Ninguém deve criar inimigos. Devemos criar amigos. Mentir nesse caso não é um ato corrupto. É uma cortesia, um agrado, uma gentileza que fazemos à pessoa que se dedicou a fazer a comida.
Já ouvi um amigo responder a essa pergunta dizendo que ele diz: “está bom”. Sendo que a pessoa entende que é a comida e ele quis dizer que o que está bom é o esforço da pessoa em fazer a comida.
A meu ver isso é uma mentira maior, porque a pessoa planejadamente, conscientemente iludiu a compreensão do outro para que entendesse uma coisa que ele não disse. É uma farsa pior que uma mentira porque envolve planejar a ilusão da compreensão do outro. A meu ver é muito mais honesto uma pequena mentira do que essa manipulação da compreensão.
Precisamos entender que não estamos num planeta puro. As pessoas estão cheias de melindres, vaidades, orgulhos. Se afrontarmos esses aspectos diretamente ao invés de sermos considerados “verdadeiros”, criamos inimigos. Somos considerados grosseiros, mal-educados. Muitos usam a expressão “sou autêntico(a)” pra justificar sua má-educação.
Então as consequências de dizer a verdade neste caso são muito piores do que dizer a mentira.
Mas o objetivo deste texto não é fazer defesa da mentira em todos os casos. Existe um limite a partir do qual a mentira é algo muito pernicioso e que deve ser realmente evitada.
Então fica a questão: qual o limite ? até onde devemos mentir e a partir de que ponto devemos falar apenas a verdade ?
Acredito que podem existir outras formas de dar esse limite. Eu uso a seguinte fórmula: toda aquela mentira que se for descoberta será compreendida como gentileza, cortesia, deve ser dita. Toda aquela mentira que se descoberta, será considerada traição NÃO deve ser dita.