2 + 2 = 22

Esses dias vi um curta chamado “Matemática alternativa” onde uma professora era criticada por ensinar a um aluno que 2+2=4 quando o aluno dizia que era 22. No vídeo, gerou-se um movimento de defesa do aluno com especialistas mostrando que 2+2 pode ser 22 e criticando a professora por ser radical. A professora acaba demitida mas tem sua vingança no final quando vão fazer as contas da demissão e ela em direito a 2 parcelas de U$ 2.000,00. Nesse momento a professora exige U$ 22.000,00.
O sentido do vídeo é óbvio: criticar quem diz que tudo é relativo e “provar” que existem coisas perenes.
Embora esse conceito certamente encontra eco na mente de muitos, há muito perigo em se encarar as coisas dessa forma e há várias falácias nesse vídeo.
Em primeiro lugar está se enxergando as coisas da perspectiva das áreas STEM (acrónimo em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática), que vêm sendo historicamente mais valorizadas academicamente gerando assim um preconceito em relação a outras áreas. Essas áreas são chamadas de exatas porque seus conceitos são passíveis de provas exatas e objetivas como a pergunta em questão.
Outras áreas entretanto não têm essa característica. Como aplicar objetividade ou exatidão à discussão do que é beleza ou arte ? Como trabalhar de forma objetiva e exata no entendimento dos processos internos pessoais ? Ao contrário das ciências exatas, esses campos de conhecimento são estruturalmente subjetivos.
Mas podemos encontrar relativização de conceitos mesmo dentro das ciências exatas, mesmo dentro da matemática. Se por exemplo colocarmos em uma planilha eletrônica em duas células separadas o valor 1,99999, somarmos as duas células e formatarmos o arredondamento pra inteiros, chegamos no valor 4 a partir de 2 números que não são 2. 2 + 2 pode ser 22 se considerarmos o “2” como símbolo ou figura. Se apenas retirarmos o conceito de atribuição de valor ao símbolo “2”, a soma passará a ser sim 22. Porque ele passará a ser uma mera figura. Quanto é  ∗ + ∗ senão ∗∗? Uma figura mais outra é igual a 2 figuras.
Então para “provarmos” nossos conceitos perenes precisamos manter a mente fixa na perspectiva que foi moldada em nós desde que nascemos e/ou utilizarmos réguas de medida que cabem somente em casos específicos de certas áreas do conhecimento. Por causa desse molde, nos mantemos muitas vezes a vida toda em um mundo restrito ao que conhecemos e deixamos a “coisas estranhas” pra lá. Isso limita nosso pensamento e quanto maior for o aumento populacional, mais o mundo parecerá “degenerado”, mas é o mundo que está degenerado ou somos nós que sempre recusamos a expansão mental a partir da convivência com o diferente e portanto não conhecemos o que o mundo realmente é ?
Infelizmente essa visão com antolhos passa a ser para muitos o parâmetro do que é correto. Já é suficientemente ruim quando alguém tem essa visão e quer viver assim porque impede sua própria evolução. Mas quando se soma a essa equação a dificuldade de conviver com pessoas que pensem diferente ou o fanatismo religioso, as coisas tendem a piorar rapidamente. O discurso que pra alguns é somente “não gostar” quando propagado entre quem pensa igual, encontra facilmente acolhida em mentes radicais que muitas vezes chegam à ação. Quantas pessoas nós conhecemos que são introspectivas e tendem a explodir facilmente ? Essas pessoas alimentadas pelo discurso de quem não é “tão radical”, chegam muitas vezes a cometer atos no nível da barbárie. E depois quem está em um discurso menos radical diz: “Mas não precisava disso, assim é demais”. Mas na hora de alimentar o discurso estava lá, dando o combustível que aquele ato terrível precisava.
Então ao ver aquele vídeo meu sentimento foi dúbio porque eu entendo a necessidade de se ver a realidade e não se deixar levar por fantasias ou por relativismos não embasados. Seguir por esse caminho é se iludir e dar margem pra todo o tipo de charlatanismo e não valorizar o estudo e a ciência. Mas por outro lado é preciso muito cuidado para que essa busca pelo real não seja apenas uma visão estreita da realidade. É preciso estar aberto para possibilidades que inicialmente pareceriam fora da realidade ou nocivas. É preciso encarar idéias novas com interesse e com espírito de descoberta. Em especial é preciso fazer um esforço para entender o que está sendo dito e se os conceitos que nos embasamos não são mera ignorância ou às vezes manipulação de quem detém o poder. Porque muitas vezes o preconceito, a ignorância e a padronização interessa a muitos porque permite a manipulação.
Encarar a vida com leveza, dar a todos a liberdade para que sejam como quiserem, permitir-se conviver com conceitos diferentes dos seus, encarar coisas diferentes com interesse e se esforçar por ampliar sua mente, cultura e conhecimento é a receita para uma vida mais plena e para a diminuição de boa parte do sofrimento no mundo.

Quantos são vc ?

Então… tá aí de boa ? Vamo aqui comigo pensar uma coisa.

Vc acha que vc é vc né ? Mas o que é vc ? Quantos são vc ?

Se ficar em silêncio e de olhos fechados um pouco, vai perceber um monte de pensamentos na sua cabeça. Se você ouve esses pensamentos, pode ver que existem pelo menos 2 partes de vc: os pensamentos e o que quer que seja que ouve os pensamentos.
Pode ver tbém que vc sente e que os sentimentos não são os pensamentos, nem aquilo que ouve os pensamentos. Então já são 3 partes.
Vc pode perceber que pode lembrar de coisas passadas e esse lugar onde vc vai buscar as lembranças não é nenhuma das outras 3 coisas. 4 partes.
Vc pode perceber que determinados sentimentos e pensamentos se apresentam sem que vc tenha qualquer controle sobre isso. De onde eles vêm e como eles chegam sem ninguém mandar ? Ou será que tem alguma coisa que é a fonte desses sentimentos e pensamentos que vc não controla ? 5 partes.
Vc sabe que de repente vc se assusta com alguma coisa, ou percebe um perigo e “dá um pulo pra trás”. Mas vc não comanda o pulo. Esse pulo é automático e por isso comandado por alguma outra coisa além da sua vontade. Mas também não é a mesma fonte de onde vêm os pensamentos e sentimentos que chegam, pq é muito mais rápido e atua muito diferente. E também não é nenhuma das outras coisas. 6 partes.
Vc sabe que existem diversos sistemas em vc que também são automáticos e não estão sobre o seu controle direto, como as batidas do coração, o funcionamento dos rins e do estômago, entre outros. Se vc não atua pra que nada disso funcione alguma coisa deve manter tudo isso funcionando. 7 partes.

Vc pode achar que é tudo isso junto, mas como achar que tudo isso é “você” se vc não controla boa parte das partes de vc ? e como acreditar que existe um efeito sem causa ? E se há uma origem ou causa para o que vc não controla em vc qual é esta causa ? Faz ou não parte de vc ?

E agora ? Ainda tem certeza que vc sabe quem ou o que é vc ?

Índigo, Cristal, X Y Z e tal

Toda geração tem suas críticas à anterior. E seus jeitos peculiares de rotulá-la. E toda geração anterior sempre acha meio estranho alguns “jeitos novos” e “rótulos novos” trazidos pela novas gerações. Eu também tive minha parte de rótulos e críticas às gerações anteriores à minha. Naquela época chamávamos de careta, antiquado, algo assim. E obviamente minha geração também deveria parecer bem estranha pra quem veio antes. Afinal de contas a minha pré-adolescência foi no auge dos movimentos Dark, Punk, Gótico e coisas assim. Lembro bem de pessoas naquela época dançando como se fosse Tai-Chi-Chuan ao som dos Joy Division da vida. Esse conceitos depressivos e desesperançosos daquela época à lá Sisters of Mercy, deveriam parecer bem estranhos. As capas dos discos do Iron também.
E agora também chega a minha vez de ver conceitos que soam estranhos para mim serem utilizados pelas novas gerações. Sendo assim resolvi falar a respeito de alguns rótulos novos que me parecem muito estranhos.

Primeiro as tais crianças “Índigo” e “cristal”. Que conceito bizarro. Em todas as épocas desde a mais remota antiguidade sempre houveram pessoas que se destacaram por sua compreensão e capacidade. Sócrates, Aristóteles, Akenaton, Sidarta, Da Vinci, Nietzsche… a lista é interminável.
E agora quer-se rotular crianças pelo simples fato de estarem em uma compreensão acima da média, ou na verdade, especialmente acima da compreensão de seus pais. Isso é um equivoco claro. Um equivoco nocivo e injusto em especial com as próprias crianças que terão depois que corresponder a essas altas expectativas que se coloca nelas desde o berço. E é um peso grande.
Por parte dos pais é triste vê-los colocar-se nessa situação. A imagem que passa é que estão querendo colocar nas costas dos filhos as suas frustrações e insucessos. Veja, nós não nos destacamos, mas meu filho é Índigo. Triste. É uma posição lamentável para se colocar.
E alimenta também algumas coisas muito ruins. Primeiro o orgulho de querer “ser especial” ao invés de ter consciência da igualdade entre todos os seres humanos. Mesmo que seu filho seja melhor nisto ou naquilo ele sempre será menos capacitado em alguma outra área. Sempre haverá alguém melhor que seu filho em alguma coisa (leia meu texto Eu sou melhor que você). E isso alimenta na pessoa a fantasia de que ele(a) tem algum merecimento especial (se achar melhor que o outro) simplesmente por ser você mesmo. Isso é só uma fantasia.
Mas eu também entendo que nossos filhos são muito especiais pra nós e tendemos naturalmente a querer colocá-los em alta consideração. Mas veja, eles terão que enfrentar o mundo algum dia. Nesse dia tudo que eles não precisam é se achar dignos de algum “merecimento especial”. Precisam aprender a trabalhar duro e se esforçar, moldando assim seu caráter.
Então não diga que seu filho é “Índigo” ou “Cristal”. Diga a realidade. Seu filho é um espírito em evolução como todos nós. Com muitas coisas a melhorar e muito a contribuir. Se ele já vai bem em algumas áreas, apoie, examine bem e o auxilie a melhorar no que ele precisa. Certamente terá muito o que trabalhar.

Aproveitando pra falar também de outro conceito que acho muito estranho. Dessa vez é comigo. É o tal rótulo Geração X, Y, Z. Parece que eu sou da X segundo um colega de trabalho.
Acho muito estranho reduzir toda uma geração, constituída de muitos universos em um período vibrante como os anos 70/80, que gerou tantos movimentos e acontecimentos a uma simples letra. É o cúmulo da simplificação.
Veja a sua época. Olhe ao seu redor. Quanta coisa acontece no mundo. Quantas culturas diferentes existem, quantos movimentos sociais, políticos e culturais. Quantos conflitos. Quantos estilos musicais existem. Acharia justo juntar bilhões de possibilidades e dizer: esse conjunto de bilhões de possibilidades chama-se A. As pessoas que fazem parte do conjunto A agem assim ou assado. Tosco né ? que simplificação grosseira. O mundo e uma determinada época sempre foi acima de tudo plural. Nem todos os rótulos do mundo serviriam para definir uma época e seu pensamento, porque o pensamento, cultura e acontecimentos, são por demais plurais. Volta e meia ouço falar de um movimento cultural da minha época que eu nunca tinha ouvido falar, de um cantor que era super-famoso e eu não conheci. Então como é possível tal redução. De novo essa é um conceito nocivo, porque segrega, separa. É mais um instrumento da velha mania humana de querer nos separar em “eles e nós”. Dica: não existem “eles”. Só tem nós. E pense num nó grande pra desatar é acabar com essa noção e convencer o povo a se unir. Essa é o grande problema desses rótulos. Reforçar a divisão.
Galera mais jovem, da próxima vez que criarem conceitos, criem conceitos unificadores. Já temos divisões demais.

Além do óbvio remodelado

Caros leitores,

De tempos em tempos o universo conspira para que as coisas se renovem. Desta vez o universo fez isso na forma de um hacker que invadiu meu antigo servidor e de um péssimo serviço por parte do provedor.
Como sempre as renovações são sempre boas. Permitiu que eu fosse obrigado a remodelar todo o site e dar uma cara mais moderninha pra ele.
Espero que gostem do novo Além do Óbvio.

Por favor relatem qualquer problema no site no meu email: nelson777@gmail.com

Carta à coroa por ocasião da perda do príncipe herdeiro

Atualmente ainda há quem defenda a monarquia. Em alguns países ainda existem reis, ainda existe quem se considere “nobre” ou “bem-nascido”. Na maioria dos casos, estas famílias não passam de caros bibelôs de luxo pagos pelo contribuinte sem poder real. Imaginemos um reino moderno, no séc. XXI onde ocorreu a morte do príncipe herdeiro. Esta é uma hipotética carta de um homem comum à coroa por ocasião deste acontecimento.

A vós senhores, que ainda ostentais tão ridículos títulos a este tempo, eu vos digo: a dor a é mesma. A dor é a mesma!
Quantas tragédias, quantas mortes, quão ridículo aos olhos de tantos ainda haveis de passar até te dares conta que teu tempo passou!
Joguem fora seus títulos! Joguem fora seus luxos. Abram mão de suas tão babilônicas vaidades. Há muito a Babilônia se foi.
Teu poder à muito se esvaiu, teus exércitos, outrora grandes, hoje não passam de enfeites pavoneantes.
Aproveita o tempo com teus filhos enquanto ainda os tens!
Que te valem teus luxos agora ? Não os trocarias todo por veres teu príncipe voltar ?
Não percebes ? A dor é a mesma. Para mim e para ti. Sem distinções, sem títulos, sem superioridades, sem maior ou menor, sem reis, rainhas, dons, príncipes ou princesas e tão somente a singeleza do tu e eu.
Já passou o tempo desses títulos ó majestades. Já se foram as carruagens, restando apenas as abóboras.
Está na hora de acordar. Está na hora de verdes que sois tudo o que sempre foste… eu e tu.
Vem… que seja um novo tempo. Que sejamos iguais e que por isso possamos permitir que o outro veja o quanto sofremos, ao invés de novamente ter de nos esconder atrás de nossa vaidade, para que ela e só ela possa prevalecer, enquanto nosso espírito esmorece mais e mais atrás das máscaras.
Não mais! Afasta-te ó vaidade! Arreda-te! Ó majestades deixai-a ir! Deixai cair as máscaras! Eu sei que a dor é a mesma. Tu também sabes. Então porque haveríamos de carregar ainda a vaidade conosco, já que temos que carregar tão pesado fardo ? Deixai-a ir majestades! Ela já recebeu seu quinhão.
Sois iguais a mim majestades. Bem o sabes. Apenas por tempo demais tentaste enganar a mim, mas principalmente a ti. Já é tempo majestades. É tempo de virdes até mim. Para que servem teus títulos ? Os luxos e as poses ? Se no final tudo o que precisamos é somente entender que não existem bem-nascidos e plebeus, mas tão somente o tu e eu.
Venham comigo majestades. Vamos descobrir um novo dia. Vamos descobrir um novo tempo onde possamos descobrir juntos um meio para que nossos filhos não morram majestades! Ao invés de perder tempos com luxos e vaidades. A vaidade só nos distrai. Faz com que percamos tempo e oportunidades de conhecer pessoas simples, lindas e leves que a vaidade corruptivamente acha inferiores. Eles são iguais majestades! Talvez menos vaidosos. Talvez com menos luxos. Talvez com menos poses. Talvez tenham menos dificuldades em pronunciar seus próprios nomes. Quem sabe talvez mais produtivos majestades.
MAS EU VOS DIGO MAJESTADES! A DOR É A MESMA! A DOR É A MESMA!

Os danos colaterais da queda do machismo

O debate a respeito do machismo anda esquentando esses dias. Bom isso. Tá mais que na hora das relações homem-mulher amadurecerem. Não é aceitável que uma mulher seja obrigada a andar permanentemente com medo e nojo ao mesmo tempo apenas por sair de casa. Não é aceitável que uma mulher seja compreendida como inferior ou como objeto. Cantadas a desconhecidas na rua não são nada éticas. Ter preconceitos como achar que mulher é mais emocional, ou que o desejo delas é diferente é só ingenuidade mesmo.
Mulheres apenas procuraram meios de se adaptar a uma sociedade terrivelmente atrasada e machista. Tá na hora disso mudar. A luta das mulheres deve ser apoiada, fortalecida e como homens devemos procurar tratar a mulher de igual pra igual, tendo a maturidade de reconhecer a igualdade que ela sempre teve.
Mas em épocas de transições culturais, sempre há excessos. É normal. É o pêndulo indo pro lado contrário com velocidade maior, porque ele esticou muito tempo pro outro lado.
São vários problemas.
Em primeiro lugar os homens que assim agem não são a totalidade. Mas homens que não participam desse contexto são muitas vezes agredidos e neles colocada a pecha de machista por um erros simples, fruto do ambiente machista em que foram criados.
Em segundo lugar por causa desse mesmo ambiente, muitas mulheres são sim machistas e anti-éticas. Se nenhuma mulher aceitasse se relacionar com homens comprometidos, não haveriam traições. Se mulheres educassem seus filhos para não serem machistas, não haveriam machistas. Todo machista tem mãe. E uma mãe machista ou que tolera o machismo do filho.
Outro problema é o uso de critérios duplos para os homens. Se um homem olha para uma mulher na rua sendo comprometido, mesmo que não aja além disso, ele é condenado. Mas ninguém imagina se ele se esforça para se libertar das amarras do ambiente que nasceu. Não se vê que apesar de olhar muitos não agem. Porquê então olham ? Porque assim foram criados e esse comportamento reforçado ao longo dos anos. Já o homem tem que compreender que a mulher tenha um comportamento agressivo em certa parte do mês. Tem que compreender que ela fique de mau humor por qualquer coisa. Tem que compreender agressão. Ás vezes física. Tem que compreender depressão. Tem que compreender desiquilíbrios. Tem que compreender “coisas de mulher”.
Mas homens também são humanos. Também têm sentimentos e conflitos internos. Também não se compreendem em muitos casos.
Um caso a se pensar é: se aquele homem que está naquela situação fosse seu filho, como você lidaria com a situação ? Será que existem mesmo monstros ? Será que aquela pessoa merece tanto antagonismo porque ainda não conseguiu evoluir o suficiente ou porque não recebeu informação suficiente pra evoluir ? É realmente culpa dele ? Ou é o jeito que as coisas sempre foram ? Dá certo lutar desse jeito ? Todo mundo precisa ser tão duro assim ? O mesmo nível de dureza que você usar com alguém, é o nível de dureza que você receberá.
O que quero dizer é: se um homem está em uma situação machista, deve receber o mesmo nível de compreensão que você quiser ter com as suas falhas. Não se iluda amiga leitora, elas são tantas e tão grandes quanto as de qualquer homem machista. Mas isso não diminui o seu valor, nem o valor dele. As qualidades sempre brilham em nós. São apenas aspectos que todos nós temos que trabalhar e precisamos de alguém que nos ensine um novo jeito de viver, se relacionar e se harmonizar para podermos construir juntos um novo mundo. Mas é juntos. Não é feministas contra machista e vice-versa. É aprender a se compreender e se harmonizar.

O limite da arte

Recentemente alguns espetáculos que foram encenados foram considerados particularmente extremos por alguns. Baseado nisso fiquei aqui refletindo a respeito do limite da arte. Este é obviamente um assunto muito controverso e difícil porque arte é um dos conceitos mais subjetivos que existem. Devido ao seu nível de subjetividade ele é compreendido das formas mais diversas pelas pessoas mais diversas. Então é sempre difícil chegar a um acordo a respeito dos muitos conceitos que circundam este tema.
Quando pensamos em arte pensamos em quadros, esculturas, peças de teatro, cinema, ópera, vídeo, instalações, poesia, literatura, design, arquitetura… tantas e tão diversas coisas que falar de “limite para a arte” soa meio estapafúrdio, meio que falta de entendimento do conceito “arte”.
É justamente esse o problema. A subjetivação é tanta que não se pode chegar a um consenso do que é realmente arte. Não há como traçar uma linha fixa onde se defina claramente isto é arte e isto não é arte. Essa linha é muito borrada e muita coisa passa de um lado para o outro simplesmente pelo olhar de quem vê.
Então eu posso colocar um papel em cima de uma mesa e dizer que isso é arte ? Pra mim isto parece ser um pouco de exagero. Mas se eu dobrar o papel e fizer um origami, já é arte. Uma cortina na parede pode ser considerada arte ? Um pneu no chão ? Esperar o ônibus pode ser arte ? Talvez… se fizermos alguma intervenção. Talvez possa. Que intervenção ? Assalto também é intervenção. Então assalto é arte ? Quem sabe aparece um para dizer que sim. Mas se você disser que não, então esse é o limite da arte ? Não causar perda ao outro ? O que os masoquistas diriam disso ? Arte chega para debater questões ? Então se eu fizer uma reunião lá em casa para debater algo isso é arte ? Só se estiver no formato de uma peça de teatro ? Não ? tem limite então ? Arte então é o que nos traz contemplação, reflexão ? Talvez arte seja algo limiar como o fogo… algo no meio do caminho entre o definido e o indefinido, entre o real e o imaginário. Algo que nasceu para ser uma linha do horizonte imaginária que se move mais e mais para longe ao procurarmos alcançá-la e tem como objetivo final somente a nossa própria evolução e a ampliação sensorial, mental, sentimental, espiritual.
Mas essa linha excessivamente ‘borrada’ ao redor da definição de arte causa um problema sério: como valorizar talentos extraordinários ? Como reconhecê-los ? Com um conceito vago tudo se nivela. Alguém que não tenha talento para cantar pode procurar outras formas de arte para se expressar. Então todos somos “artistas” ? Mas aí caímos em outro problema, como reconhecer um charlatão ? Aquele que quer apenas se aproveitar dessa subjetividade para lucrar. Ele pode simplesmente inventar uma historinha para se justificar e pronto: é arte. É justo dar a ele esta liberdade ? É justo que um Michelangelo ou um Rodin sejam comparados em grau de importância a alguém que fez um origami que aprendeu na internet se ele disser por exemplo que aquele avião de papel que acabou de fazer e colocar em cima da mesa é “uma instalação para trazer a reflexão do sentido de voar”. Mas tudo é arte e arte não tem limite. Então, por esse conceito sim… os dois têm a mesma importância.
E a qualidade onde fica ? Ela é obrigatoriamente desassociada da arte ? Arte não tem realmente hierarquia ?
O que estou querendo demonstrar é que embora seja difícil de admitir para muitos especialmente para os menos talentosos que buscam explicações rebuscadas para sua falta de talento, arte tem sim limite. Arte precisa ser estudada. Não é só chegar e fazer qualquer coisa. Vc precisa conhecer quem veio antes de você. Precisa conhecer a técnica ou inventar uma, mas sabendo que aquilo que foi desenvolvido e aprimorado durante muito tempo, ao custo de muito sacrifício e dedicação tem sim mais valor do que aquilo que você acabou de inventar.
Porque se não for assim o que resta ? Decadência. Se não for exigido estudo, qualidade, refino e aceitarmos que absolutamente qualquer coisa é arte, qualquer coisa é válida, o que acontece é que um talento extraordinário não teria qualquer incentivo para se desenvolver. O caminho é para cima. Devemos recusar a espiral descendente em prol da ascendente.
Qualidade é imprescindível. Talento é insubstituível. A arte tem sim limite.

Obediência

Uma palavra que causa arrepios em muita gente: obediência. Parece que só em pronunciá-la já levantamos os escudos.
Acredito que falta consciência do que é “obedecer”.
Repare em primeiro lugar que a palavra por si não está dizendo que a obediência significa submissão à vontade do outro. Você pode por exemplo obedecer ao plano que você mesmo estabeleceu pra si. Pode obedecer sua consciência. Pode obedecer sua moral. Pode obedecer a um estudo que você mesmo fez a respeito de algo.
Mas também pode obedecer a outra pessoa. Não necessariamente isso é sempre mau. Se essa pessoa for de sua confiança e quiser o seu bem isso é inclusive muito bom pra você. Muitas vezes você pode não conhecer alguma coisa e buscar conselho de quem conhece e obedecê-lo pode ser a melhor coisa a fazer.
Mas também tem o caso que alguém querer submeter o outro pra dominar, manipular, subjugar. Nesse caso a desobediência obviamente se justifica. Mas quis mostrar que esse é apenas uma forma corrupta de obediência e não a única, como muitas vezes pode parecer a alguns.
Outra coisa que quero chamar à atenção é que mesmo o mais rebelde dos seres obedece continuadamente, 24/7, sem paradas, dormindo ou acordado. Provo.
A ideia da não-obediência é que você toma uma decisão consciente, livre, de acordo com a sua “vontade”.
Vamos dissecar isso um pouco. O que é “vontade” ? Quantas vezes você tomou uma decisão realmente “consciente” ? Você “teve vontade” de comer um sorvete, “teve vontade” de “trabalhar com este ou aquele tema”, “se sentiu atraído” por esta ou aquela pessoa. Quantas destas coisas foram “conscientes” ? Será que você pode realmente dizer que você tomou uma decisão consciente de sentir isso ou aquilo ? Ou de ter esta ou aquela vontade ? Ou será que você sentiu algo e depois agiu porque sentiu esse algo ? Você tem realmente controle a respeito desse sentir ? Pode deixar de ter vontade de alguma coisa ? Até pode, mas tem que segurar muito. Se for um vício muitas vezes tem que fazer um esforço enorme pra se libertar dele se conseguir.
Então você obedece continuamente. Obedece o que você sente sem qualquer controle de sua vontade.
Você acorda obedecendo. Porque seu corpo não tem mais sono e você tem que sair da cama porque não consegue mais dormir. Depois você obedece ao conhecimento de medicina básico e à convenção social que você tem que tomar um banho ou fazer sua higiene. Depois você obedece sua fome vai tomar café, obedecendo sua cultura de comer o que você foi ensinado a comer no café da manhã, depois você obedece seu corpo que tem alguma necessidade fisiológica, depois você obedece à convenção que você tem que andar vestido, depois você obedece à convenção e à norma social que você precisa estudar ou trabalhar. E assim sucessivamente você segue obedecendo não à sua consciência mas a uma séria de coisas externas ao seu controle consciente. Até que no final do dia você obedece ao sono que está sentindo e dorme e enquanto tá dormindo não tem controle do que você sonha e é obrigado a ver o que quer que seus sonhos tragam a você.
Sua rotina pode ser bem diferente dessa, mas tenho certeza que você pode entender o exemplo que estou dando se não quiser desviar o assunto.
Resumindo: o nível de escolhas conscientes que fazemos ao longo da vida é realmente mínimo. Muito pequeno mesmo. Pense assim: quantas vezes ao longo do dia você realmente analisa com cuidado alguma situação para tomar a melhor decisão ? Muito poucas vezes. E nessas vezes você é influenciado por vontades, sentimentos e externalidades completamente fora do seu controle.
Eu só acredito que um ser humano é realmente desobediente se ele sentir uma necessidade fisiológica e não obedecer a ela conscientemente por um longo período de tempo. Aí eu digo que ele é realmente desobediente.
Então se todos nós obedecemos continuamente, resta a pergunta: se tudo neste mundo necessita de um agente, de uma causa original, de onde se originam e o que são todas essas coisas, essas vontades e desejos que não controlamos ?
A resposta a essa pergunta tem que ser individual, uma resposta de nós para nós mesmos de acordo com nossos conceitos e visões de mundo.
Mas antecipo duas visões que podem auxiliar nessa descoberta: podemos achar que essas vontades inconscientes são nosso próprio eu, que obedecer a elas é obedecer a nós mesmos e por outro lado podemos achar que essas vontades são separadas da nossa identidade.
Se seguirmos pelo primeiro caminho trataremos de satisfazer essas vontades, elas crescerão e elas então controlarão nossa vida, uma vez que acreditamos que elas são nosso verdadeiro eu.
Pelo segundo caminho trataremos de dominá-las reduzi-las e assim ter mais controle e consciência nosso respeito.
Então o que quero demonstrar com isso, é que o caminho da desobediência é o caminho de sua própria escravização. E o caminho da obediência, no sentido consciente acima, é o caminho de nossa libertação e ampliação de consciência.
Então todos nós obedecemos: uns obedecem a suas vontades e desejos e outros a sua consciência e evolução. Mas todos obedecem. Continuamente, sem qualquer pausa e enquanto existirmos.

A resposta

Estou querendo dar minha visão das respostas básicas que a humanidade procura desde que existe. De onde viemos, para onde vamos e o que estamos fazendo aqui. Penso a respeito desse assunto desde que, quando jovem, comecei a buscar, como muitos, o sentido para a vida. Faz uns 30 anos que penso nessa questão que agora escrevo. Não me perguntem as fontes. Nem as saberia citar direito. Mas elas incluem diversas linhas espirituais pelas quais passei, livros que li e principalmente meu pensamento próprio. Vamos lá então.
Tudo o que não é material em nós se resume a 2 coisas: Luz e Força. Jaquim e Boaz.
Luz é entendimento. Compreender as coisas. Saber e entender tudo no Universo. É também o diálogo, entendimento, concórdia que, no fundo, continua sendo compreensão de algo. Neste caso o outro. Luz é também o amor porque este é o sentimento de compreensão máxima. É só pensar no amor de mãe pelo filho e facilmente se compreende que qualquer que seja a situação ela o compreende integralmente.
Para compreendermos melhor o que é luz, perceba que estou falando de entender, saber, comungar em sentido
amplo. Se nos lembrarmos da luz ao passar por um prisma, percebemos que ela é constituída de muitas cores. Então aumentar a luz significa desenvolver nosso conhecimento, nossa percepção, nossa capacidade de se colocar no lugar do outro, nossa perícia na interação com o mundo (no uso de ferramentas, na desenvoltura em navegar em uma certa área do conhecimento, até mesmo na pilotagem de um veículo, esportes, etc), nosso desenvolvimento da capacidade de lidar com suas próprias emoções, nossa capacidade de lidar com situações inesperadas e com o outro, nossa capacidade de liderar, nossa capacidade de compreender as razões do outro entre muitos outros aspectos da vida.
Força é a energia para realizar. O levantar de um tijolo com o qual (com o conhecimento=luz) se constrói uma casa. Força é também o uso da força para resolver uma situação, é a corrente elétrica que gera o campo magnético que permite todas as “maravilhas da tecnologia moderna”, entre outras coisas.
Existe também o conceito de consciência. Consciência é uma quantidade. A quantidade de luz presente em alguma coisa. Luz no sentido acima. Quanto maior a luz presente em “algo”, mais consciente é este “algo”.
Acima desde Universo existe uma região que chamarei de Superuniverso. Este Superuniverso é a própria Consciência em si. Nesta região esta Consciência em estado bruto, com pouca luz, simplesmente existia. Não havia mudança, necessidade de mudança ou vontade de mudar. Em um certo momento no início dos tempos, por um motivo que ignoro, passou a existir nesta região uma Fonte de luz que corresponde ao sentimento de amor. Um entendimento maior, a Luz Universal.
Portanto neste Superuniverso existe uma oposição entre 2 estados. A Luz que tudo sabe, tudo compreende e a parte que simplesmente existe, ou seja, a parte consciente que precede a chegada dessa Fonte de Luz Universal. A Fonte de Luz Universal tem o propósito de ampliar a luz daquela Consciência.
A Fonte de Luz neste propósito de se expandir e para ampliar a luz da Consciência pré-existente comanda a criação de Universos. Faz isso criando uma perturbação nessa região que é inicialmente estática. Esse “comando”, essa “perturbação do estático” é conhecida em muitas culturas como o mantram OM.
Ao comandar essa perturbação cria então uma singularidade. Um ponto que ‘suga’ consciência pra dentro de si e que se expande a ponto de criar um Universo. Esse ponto corresponde à origem do Universo. O Big Bang. O ponto de entrada neste Universo e também o ponto a partir do qual ele se expande.
Uma parte da Consciência Cósmica é sugada para dentro deste Universo. Para que a luz desta parte da Consciência Cósmica seja ampliada é preciso atrito. Movimento. Contato com uma parte diferente de si mesmo. Mas ela, por ser um todo não gera o movimento e o atrito necessário a este processo. Ela é então dividida em incontáveis partes separadas, como que gotas de água em um oceano.
O processo de criação do Universo é também uma materialização. A criação de um “lugar’ onde este processo pode acontecer.
Então, estas “parte separadas” da Grande Consciência são presas em veículos que possibilitam este trabalho que são os corpos dos diversos seres da natureza. Sendo cada “parte separada” uma gota da consciência original.
Assim chegamos a este e outros mundos deste Universo, para conhecer e conviver com outras diferentes partes desta grande Consciência.
Cada ser na natureza possui maior ou menor grau de luz. Nesse processo a luz desses seres vai ampliando, ampliando ao ponto do nível de consciência daquele ser, estar apta a receber o intelecto.
É por isso que seu cachorro parece “quase gente”.
Para que este processo de criação de luz seja obrigatório se criou a natureza e os processos naturais, como a atração, sexo e, no caso humano, casamento (mas os outros seres também têm seus processos). Obrigando assim a convivência de um espírito com o outros (cônjuge e filhos), o que permite a evolução.
A continuidade deste processo, nascendo e morrendo muitas vezes, amplia nossa luz até chegar o dia onde estejamos com uma quantidade de luz suficiente para que ele não seja mais necessário.
Então nos reunificamos à consciência original inserida dentro deste Universo ampliando a luz da mesma.
Quando todos os espíritos chegarem a este grau, o Universo se contrai e a Consciência que aqui está volta ao Superuniverso inicial com muito mais luz do que quando entrou. Assim se dá o que os Hindus chamam da “respiração” de Brahma, com a expansão e a conseqüente contração dos Universos ao longo das eras.
Então, respondendo: de onde viemos: viemos de um superuniverso acima deste. Para onde vamos: voltar pra lá com mais luz do que entramos. Quem somos ? somos parte de um grande Consciência Cósmica presente no Superuniverso e sub-dividida neste Universo. O que estamos fazendo aqui ? ampliando nossa luz para podermos nos reunificar com esta Consciência e retornar ao Superuniverso quando todos tivermos concluído o processo.
Isto explica alguma outras coisas. Explica por exemplo porquê temos tanta dificuldade em nos modificar. É porque o estado natural “anterior” era simplesmente existirmos. E estamos aqui neste Universo pra nos transformar em algo melhor. Isso é lento, doloroso e feito através da convivência com outras pessoas e seres.
Explica porque nos sentimos tão mal com conflitos. É o atrito da resistência à mudança.
Explica porque nos sentimos tão bem quando “deixamos alguma coisa pra lá”. Estamos seguindo o fluxo do nosso destino.
E em especial explica a visão do caminho da mão esquerda (”o mal” por assim dizer). O sentido é dominar para criar um ser acima de toda humanidade, capaz de ter o poder de criar a Apoteose (o domínio completo). Mas pra quê ? Para ter o poder de resistir a essa onda de mudança. Para manter a sua “identidade”. Aquilo que que acham que os define. Para manter tudo igual impedindo esse fluxo de luz e de amor. Por excelência o caminho da mão esquerda é um caminho de estagnação espiritual. O objetivo final é levar todas as partes de volta ao superuniverso iguais ao que entraram. Uma “libertação” por esta visão. Por isso consideram o plano da Divindade uma tirania.
Mas essa vertente é só uma ilusão. Sempre foi só uma ilusão. Ilusão criada pela falta de consciência original. Esse fluxo é imparável, inquebrantável. Brahma não tosse. Ele respira continua e firmemente a longo das eras.
Abrir nosso coração é o único caminho possível. Estamos todos junto até o final dos tempos. É tempo de nos unirmos pra acelerar o processo.

Quem é o melhor escritor ?

Não dá pra responder essa pergunta. Explico: pra você definir o “melhor escritor” precisaria definir os critérios para avaliação de “melhor”. Estes critérios em qualquer forma de arte são completamente subjetivos. Um crítico com grande nível de erudição pode considerar que “melhor” seja um texto mais críptico que demostre grande nível de conhecimento da língua e de recursos ímpares. Um leitor costumeiro pode ter como “melhor” aquilo que lhe provoca maior impacto emocional. Um fã de um certo autor pode estar até inconscientemente tentado a considerar um novo livro dele melhor do que livros de outros autores. “Melhor” é uma palavra que definitivamente não é consenso.
Meu autor predileto é o Michael Ende (alemão), autor do que é pra mim o “melhor” livro que eu já li na vida, a “História sem fim”. Os critérios que eu uso para considerá-lo o melhor livro pra mim são:

-impacto emocional em mim
-grandiosidade
-grau de imaginação do autor em propor algo completamente além da imaginação comum
-um sentido maior na história
-elementos na história que vc só percebe as conexões com muito esforço e com um tanto de conhecimento “não convencional”
-beleza da narrativa
-forma de escrita (“jeito”) do autor que me é bem familiar
-elementos na história onde me encaixo e especialmente meu sentimento se encaixa.
-entre outras coisas

Tudo isso é extremamente pessoal, extremamente subjetivo e extremamente difícil de ser compartilhado por mais alguém, porque é meu… da minha personalidade que mais ninguém tem.
Além disso, hierarquizar a arte é algo perigoso. Há uma linha tênue que separa essa atitude de preconceito. Tá… eu posso sim dizer que Saramago escreve melhor que J. K. Rowling. Mas mesmo em um caso extremo como esse tem um tanto de adolescentes que não concordam comigo. Olhaí eu sendo preconceituoso. Viu como é perigoso ? 😀 Mas eu posso supostamente fazer uma comparação como essa por causa da enorme diferença de nível entre esses dois autores (posso mesmo ? tem mesmo essa diferença de nível ?). Mas se eu comparar Saramago com Guimarães Rosa a coisa já fica mais difícil. Quem está acima ? Não dá pra dizer que qualquer um deles está acima do outro. Qualquer tentativa de fazer isso muito possivelmente cairá em algum tipo de preconceito como acabei de demonstrar.
Não me entendam mal. Não tô querendo comparar coisas medíocres com coisas elevadas. Existe sim um “nível mínimo”. Não dá pra escrever errado sem estar retratando um falar de algum personagem ou alguma outra situação onde isso seja contextual e intencional. Não dá pra ser fútil ou escrever futilidades. Não dá pra ser falacioso ou raso. Fazendo um comparativo de outro tipo de arte, não estou dizendo que funk é comparável a música clássica. Existe sim uma diferença de qualidade grande entre algumas produções. Mas acima de um nível médio pra alto, aí fica bem difícil fazer isso sem cair em preconceitos.
Ainda tem os escritores técnicos, os poetas, os textos jornalísticos, tudo isso é escrita. Se um escritor técnico for excelente em repassar o conhecimento dele isso também não pode ser considerado “melhor” ? Imagina comparar um escritor técnico com um grande autor da literatura. Será que dá pra misturar alhos com bugalhos ? pra mim dá não.
Cada autor tem suas características, suas particularidades, suas belezas, seus regionalismos. E são todos incomparáveis.

Vamos lembrar do filme “Sociedade dos poetas mortos” e seu mote histórico “rasgem a página que diz que a poesia pode ser medida”.