A elegância e o peido

De longa data sou avesso ao conceito de elegância. É inacreditável ver o valor que se dá a esta besteira.

Parecem bonecos de porcelana intocáveis. Na verdade não presta para nada porque esta mesma elegância é tão frágil que pode ser destruída por uma rajada de vento, um simples movimento da perna errado ou uma encostada na parede. Detalhes bestas arrasam rapidamente esta frágil fantasia.

Tem uma experiência que gosto de fazer e que nos traz de volta imediatamente a realidade dos fatos quando nos encontramos perante alguém muito bem vestido: Imagine um executivo em seu terno Armani com aquele “LOOK” arrasador. Ora, sabemos muito bem que este indivíduo como ser humano que é, peida. Imagine que debaixo daquela calça bonita e cara, ele peida! Vejamos os detalhes: o peido sai de dentro dele e cheira mal. Tão mal quanto o de qualquer um. E o peido sai igualzinho, e o cheiro é igual ou pior. O que pode ser mais deselegante que isso ? Então veja só, o peido se torna um fator de desmistificação da elegância da pessoa em questão. Porque afinal não há nada mais antigo, medieval e deselegante que um peido, não é mesmo ?

Independentemente de experiências humorísticas, elegância foi criada para que pessoas se mostrassem superiores aos outros. Mais modernos, mais sofisticados, mais ricos. Foi criada para mascarar a necessidade de se sobressair intelectualmente. Por exemplo, em quem você confia mais pra uma tarefa específica ? Naquele executivo de paletó ou num punk ? (eu com certeza confio mais no punk de longe). Mas o certo mesmo é que devíamos confiar era em quem estivesse mais preparado intelectualmente, e não em quem estivesse melhor vestido. Porque afinal, o que é necessário para uma tarefa é conhecimento técnico e não elegância.

Algumas tarefas necessitam de elegância. Mas isso se deve unicamente ao fato de toda sociedade estar tomada pela bendita fantasia que a roupa faz o homem. E é exatamente o contrário. Acredito ao contrário que quem se veste bem demais pretende justamente ocultar o seu lado ruim com roupas belas que denotam “uma certa nobreza”.

Elegância em exagero atrapalha o trabalho ao invés de ajudar. Você está sempre preocupado em não se sujar, não manchar a roupa. Enfim, está preso. Preso aos outros. Preso a agradar os outros.

Você se veste bem pra se sentir bonita ? Porquê ? Se nua você é feia não vai ficar bonita de jeito nenhum. Pode ficar mais ridícula se pintando. Mas jamais vai ter a beleza radiante de uma menina que é linda sem qualquer produção ou maquiagem.

Quem é belo, não necessita de nenhuma produção para ser absolutamente arrasador. E quem tenta se comparar a isso com maquiagem, só fica artificial, e muitas vezes ridícula.

Quando vejo pessoas jovens absolutamente produzidas me afasto naturalmente. Vejo-as como pessoas que perdem suas juventudes dando valor a status e desfiles que os fazem absolutamente pequenos. Vejo que não se preocupam com questões maiores e estão tão absolutamente ligados á sua pequena vaidade, que normalmente só compram infelicidades para suas vidas. Vejo a elegância, como algo ultrapassado, provinciano (tipo roupa de domingo), como fantasia que dura breves momentos, como um fator que nos afasta de nós mesmos, como algo que tenta esconder aspectos ruins de nossa personalidade, como um fator que gera pobreza porque pessoas são colocadas de lado por preconceitos contra seu jeito de vestir. Vejo a elegância como coisa de quem não aprendeu nada na vida e com a vida. Vejo como algo que não deveria nem existir. Porque afinal uma hora você vai estar bem vestido e vai peidar, lembra ?

Apologia ao nada

Caríssimos srs,

Venho por meio desta expressar minha grande estima e consideração a todos, sendo esta extensível aos membros de suas respectivas famílias, amigos, conhecidos e outros que porventura queiram incluir em tão nobre lista.Espero poder encontrar a todos de boa saúde, primando sempre pela superação de suas vidas, e realização de suas mais altas espectativas.
Quero também parabenizá-los pelas realizações já conquistadas nesta longa caminhada que temos

feito juntos neste mundo tão atribulado e tão necessitado.

Reitero que o motivo que me leva a elaborar esta missiva prima de grande importância e valor.

Antes porém não podia ater-me de enviar saudações a nossos estimados leitores freqüentes e outros que quiçá estejam de passagem por tais paragens.

Nos dias de hoje encontramos grande dificuldade de encontrar espaço em nossa preenchida agenda de compromissos. Compreendo que existem necessidades da mais viva importäncia, que nos levam a um vida cada vez mais plena de atividades.

Por tal é deveras inquantitativo o apreço que sinto por tal honra que me dedicam.
Começo minha narrativa incluindo um pequeno espaço para que possam meditar profundamente sobre todo o vazio da existência

Assim podemos melhor compreender que temos grandes necessidades. Preementes diria. E que venho por hora, não diria endereçar, mas quiçá compreender.

Portanto, expresso minha satisfação em que pudéssemos ter passado juntos, alguns momentos agradáveis, prazerosos, impares e por que não dizer esplendorosos.

Momentos que ficarão gravados eternamente em nossas mentes, e que seguramente gerarão frutos, histórias, pensamentos, análises, quem sabe até teses de doutorado, ou não sei lá.

Não gostaria de me despedir, sem novamente reiterar meu apreço, consideração e amizade recheada de lirismo afetuoso e sincero.

Sem mais despeço-me de todos, esperando ter contribuído para o aumento de sua capacidade cognitiva, no sentido de não ficar mais perdendo tempo com todas as bobagens que aparecem na internet.

Saudações cordiais,

Nelson Teixeira

Ser governado

O texto abaixo é um trecho do texto original escrito por um dos principais anarquistas dos séc. XIX e reflete muito bem tudo o que o estado moderno representa.


Ser governado significa ser observado, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, cercado, doutrinado,admoestado, controlado, avaliado, censurado, comandado; e por criaturas que para isso não tem o direito, nem a sabedoria, nem a virtude…

Ser governado significa que todo movimento, operação ou transação que realizamos é anotada, registrada, catalogado em censos, taxada, selada, avaliada monetariamente, patenteada, licenciada, autorizada, recomendada ou desaconselhada, frustrada, reformada, endireitada, corrigida. Submeter-se ao governo significa consentir em ser tributado, treinado, redimido,explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; tudo isso em nome da utilidade pública e do bem comum.

Então, ao primeiro sinal de resistência, à primeira palavra de protesto, somos reprimidos, multados, desprezados, humilhados, perseguidos, empurrados, espancados, garroteados, aprisionados, fuzilados, metralhados, julgados, sentenciados, deportados, sacrificados, vendidos, traídos e, para completar, ridicularizados, escarnecidos, ultrajados e desonrados.

Isso é o governo, essa é a sua justiça e sua moralidade! …

Oh, personalidade humana! Como pudeste te curvar à tamanha sujeição durante sessenta séculos ?

Pierre Joseph Proudhon em
“Idée générale de la révolution au XIXe siècle”

Máquinas!

Vivemos rodeados de máquinas! Eu gosto muito delas apesar dos esforços que certas, digo, certa corporação faz, para que nosso relacionamento com elas fique cada vez pior.
Elas são vistas na maioria das vezes como frias, algo como a materialização do mal. Um negócio meio sem alma. Juro que queria ver alguém tentando argumentar a favor desse ponto pilotando uma boa Harley-Davidson.
Não me lembro quantos debates em mesa de bar já tive, tentando argumentar a favor de que pode e seria bom que existisse uma máquina igual a um ser humano, que fosse impossível de destinguir por outro ser humano sem um exame técnico detalhado.
Aqui no quase papel da tela do meu monitor, meus leitores nada podem fazer para deter minha metralhante dialética, e portanto vou abusar um pouquinho da minha posição favorável. Tentarei mostrar porque isso é viável e útil.
Quanto á viabilidade, temos que estabelecer alguns conceitos computacionais para que o leitor médio possa se sintonizar: Um sistema computacional para resolver um problema qualquer, digamos um controle de estoque, é constituído basicamente por três partes: armazenamento, transferência e processamento de dados. No exemplo referido, os dados são transferidos do meio físico (usuário ou materiais em si) para um meio eletrônico de armazenamento qualquer, são enviados da matriz à filial, do supervisor ao gerente, á impressora para emissão de relatórios, e valores são calculados, formatados para apresentação entre outros. Armazenamento, transferência e processamento sempre.
Simular um sistema tão complexo como um ser humano seria realmente uma tarefa monumental.
Antes de qualquer coisa os materiais que simulariam as várias funções são talvez a parte mais difícil de simular.
Mas entretanto ninguém pode dizer que uma pessoa com mutilações cutâneas deixe de ser um ser humano, portanto esquecendo os detalhes estéticos por um momento consideremos o que sobra.
Quando ao físico somos basicamente uma estrutura óssea, tecidos, músculos ligados a um sistema nervoso e um cérebro para coordenar tudo isso.
Vamos mudar os nomes.
Quanto ao físico somos basicamente uma estrutura de titânio, tecidos, músculos artificiais (já foram desenvolvidos) ligados a um sistema de fibra ótica e um processador central com um enorme banco de dados para coordenar tudo isso.
– “Ah mas jamais uma máquina vai conseguir chegar á perfeição do ser humano”.
Caramba! Nem minha posição previlegiada me impediu de que eu ouvisse isso que você leitor acabou de dizer!
Talvez não. Mas vejamos. Seu corpo, caro leitor, permite uma variedade quase infinita de posições, expressões, pequenos gestos, formas de olhar, etc. É capaz de gerar emoções das mais distintas. É uma máquina maravilhosa. Uma verdadeira obra de arte. Mas é exatamente nessa definição quer repousa a possibilidade de reproduzi-la.
O número de posições, expressões, emoções, etc é quase infinito, em outras palavras finito. Isso abre a possibilidade de ser colocado em um banco de dados de tamanho quase inimaginável. Isto feito, a viabilidade de nosso ser humano artificial dependeria apenas de capacidade de armazenamento, velocidade de processamento e velocidade de transmissão de dados.
Vamos dar alguns exemplos: quando às posições que um corpo humano pode assumir. Suponhamos que se criasse uma estrutura com a mesma aparência de um ser humano que fosse capaz de mover suas articulações em intervalos de 1/10 de grau. Isso significaria que este andróide seria capaz de reproduzir com fidelidade 900 posições do braço desde esticado até levantado em 90o. Seu braço pode fazer isso ? Esse estrutura de um andróide não existe ainda. Mas pode ser fabricado em um futuro próximo.
No caso de expressões do rosto. Cada expressão representa o movimento conjunto de vários músculos. Quantas combinações podemos ter de movimentos musculares ? centenas de bilhões, possivelmente mais que isso. Esse número é portanto finito. Se for construído um rosto com a totalidade (quem sabe até um número maior de músculos) e houver uma capacidade de dar ordens de movimento combinadas a ele, podemos simular qualquer expressão humana.
Sensações e emoções, neste caso estas se traduzem por reações musculares, e ações. O que nos leva aos casos acima. Lembrando sempre que estamos tentando mostrar a viabilidade da simulação de um ser humano e não a possibilidade de fazer um ser humano no total sentido da palavra.
Reações. Um ser humano reage das formas mais diferentes a estímulos externos. De novo esse número é finito, mesmo para um ser humano. Ainda que supuséssemos incluir nessa discussão os indivíduos considerados mentalmente enfermos quantas reações podemos ter para um evento específico ? supondo que digamos “bom dia” a alguém, quantas reações podemos ter ? A reação “virar de ponta cabeça e começar a dar murros no chão” é possível ? É sim! Seria mais um dos dados do nosso banco. Mas sinceramente não é muito útil incluí-la no banco. Seria muito melhor limitar os dados a reações “adequadas” a um comportamento “são”. Isso tornaria nossa simulação mais aceitável e útil.
Muito bem, então vai ser possível ter uma máquina que faz todos os movimentos do corpo humano, tem tecidos que deixam sua aparência igual a um ser humano, simula todas as expressões humanas, todos os movimentos e ações que um ser humano pode fazer e muitos que um ser humano não consegue. Agora é momento de iniciar a discussão mais importante!
Alguém vai dizer: “Mas continua sendo uma máquina! É vazio. Não tem alma.”
Realmente é. Mas também não é pra ter. O problema é que por razões culturais e religiosas algo parecido com um ser humano que não tenha alma é “meio demoníaco”, assustador.
Se nos livrarmos um pouco desses preconceitos, podemos enxergar que tal máquina pode ser muito útil. Pode cumprir funções e tomar decisões baseados nos critérios que quisermos impor a elas. Seriam os melhores mineiros de carvão do mundo, os melhores empregados em profissões perigosas. Vale todo o esforço, livrariam o ser humano de funções repetitivas, perigosas e/ou indignas de serem realizadas por um ser humano de verdade.
Um único ser humano é capaz de mudar o mundo! Vários já o fizeram. Um ser humano tem a capacidade de criar e evoluir. E no entanto temos tantos milhões e milhões vivendo vidas miseráveis. E não sendo nada além de mais um animal neste planeta.
Mas existe uma discussão maior que essa: Para mim um ser humano é capaz de ser mau. Essa máquina não seria, desde que programada adequadamente seguindo as três leis da robótica* de Isaac Asimov. Algumas religiões acreditam que pessoas com comportamentos muito cruéis não são dotadas de alma. Neste caso elas ainda são seres humanos ? Qual seria mais humano, o andróide que proponho, ou um serial killer canibal ? O QUE É UM SER HUMANO ?
A partir do momento que essas classe de máquinas evoluir a um ponto, onde simulem com absoluta fidelidade um ser humano, onde cuidem do ser humano, e convivam harmoniosamente, como podemos provar que a mesma força que coloca a alma em uma máquina imperfeita como somos nós não possa usar máquinas mais perfeitas como habitáculos para almas ?
Estaríamos brincando de Deus ? desrespeitando-O ? será que a vontade de Deus não é justamente que busquemos a evolução ? Passei dos limites caro leitor ?
O que sei é que o futuro me parece muito interessante e não assustador.

*Isaac Asimov em sua série de livros sobre os robôs definiu as três leis da robótica da seguinte forma:
1a.Lei: Um robô não deve fazer mal a um ser humano, ou por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2a.Lei: Um robô deve obedecer a um ser humano, a menos que isso interfira com a 1a. Lei.
3a. Lei: Um robô deve buscar sua sobrevivência desde que isso não interfira com a 1a e a 2a Leis.

Fantasias

Depois do último texto fiquei pensando sobre as fantasias que todos nós nos deixamos levar. Afinal Copas não são nada mais do fantasias ao extemo. Mas fantasia é o que mais existe nesse mundo. Vivemos numa grande “Matrix” que existe à muitos anos e se chama cultura estabelecida. Ela nos faz dar valor a isso ou aquilo. A questão é só o quanto nos apegamos a uma fantasia ou a outra. Por isso fiquei pensando porque eu especificamente não sou apegado à fantasia do futebol.
Bem, primeiro ela é uma fantasia realmente grande e salta ao olhos. Se não vejamos: o que é um time ? É um conjunto de pessoas que mudam com freqüência, contratados por uma diretoria que muda com menos freqüência, que é simbolizada por um brasão que muda com menos freqüência ainda. Acho que a única coisa que permanece em um time são as cores. Pelo menos não chegou até os meus pouco futebolísticos ouvidos a notícia que algum time, alguma vez tenha mudado de cores. Então quando torcemos por um time, basicamente estamos torcendo para que a diretoria do clube, tenha o bom senso e dinheiro para contratar bons jogadores e técnico para que esse conjunto de pessoas possa fazer algumas cores serem vitoriosas sobre outras. Não me parece muito interessante.
Mas essa é apenas uma das muitas fantasias que nos cercam. Os hindus chamam isso de Maya ou a ilusão, que não deixa de ser muito diferente do conceito do filme Matrix. Eu sou pessoalmente apegado a várias: rock é consciência, moto é liberdade, cabelo comprido é ser contrário ao pensamento tradicional, jogos de computador, ler traz conhecimento e várias outras. Ter fantasias faz a nossa vida ser mais divertida e nos dá algumas experiências interessantes.
Então porque eu não me apeguei à fantasia do futebol ? Fazendo uma análise mais profunda, acho que me desinteressei na infância porque eu mesmo era muito ruim jogando. Aí como eu não participava dos jogos, eu fui me interessando por outras coisas, e quando comecei a ter uma compreensão melhor, vi que realmente era uma fantasia muito grande de todo mundo. Melhor, menos uma coisa irreal na minha vida para trabalhar.
Hoje vejo o processo de evolução psicológica/espiritual justamente como a eliminação das fantasias que vamos nos apegando ao longo do tempo. Quanto mais percebemos as fantasias e abrimos mão delas, mais nos tornamos melhores e mais evoluídos. Repare que quando digo abrir mão de uma fantasia, quero dizer deixar o apego a ela, não é que vc tem que deixar de fazer o que você gosta e sim dar a isso a devida importância e fazê-lo de uma forma equilibrada e sem se deixar levar.
Por isso eu não sou melhor que ninguém, por perceber a enorme fantasia da copa. Por exemplo: o que traz de bom pra mim jogar um jogo de computador ? Igualmente nada. E eu jogo. É exatamente a mesma coisa. Uma forma divertida de passar o tempo, ao gosto de cada um.
O ruim é deixar essa fantasia chegar ao ponto de gerar catarse. Ela sim pode causar tragédias e trazer o pior de cada um à tona. Por isso, use sua fantasia do jeito que quiser, mas tenha consciência de saber que ela é uma fantasia, faça isso de forma equilibrada, e sabendo que outras pessoas têm outras fantasias também que não são piores nem melhores que a sua, são apenas fantasias.

Para que serve uma copa do mundo ?

Para que serve uma copa do mundo ?

Serve para melhorar a situação econômica do país ? Não.
Serve para diminuir o desemprego ? Não.
Serve para diminuir a violência ? Não.
Serve para diminuir a intolerância ? Não, serve pra aumentá-la.
Serve para melhorar o nível de cultura ? Não.
Serve para que o brasileiro estude mais ? Não.
Então para que serve ?
Serve para aumentar a alienação.
Serve para permitir que aqueles que manipulam possam continuar manipulando.
Serve para esquecer por alguns momentos a miséria, e achar que somos felizes.
Serve para se esconder atrás de alguns momentos de felicidade a tristeza do dia a dia.
Serve para jogar fora a esperança de uma vida melhor e trocá-la pela esperança que o “Brasil seja Hexa-campeão”.
Serve para que possamos torcer juntos por alguma coisa, mesmo que essa coisa seja vazia e não leve a nada. Depois podemos dizer que estávamos juntos, mesmo que logo depois voltemos à exploração de sempre.
Serve para passar projetos na câmara que gerariam polêmica se fossem votados em outro período.
Serve para se esquecer os grandes escândalos nacionais.
Serve para nos iludirmos que temos heróis, sendo que esse tipo de heróis nada fazem pelo Brasil.
Serve para continuarmos a viver de festa em festa olhando pro outro lado quando vemos a realidade da violência e da miséria.
Serve para aumentar a rivalidade e intolerância com outros povos.

Copas do mundo me fazem lembrar de uma certa música que começa assim:

“Vamos celebrar a estúpidez humana, a estupidez de todas as nações…”

Estou sinceramente torcendo que o Brasil perca. Não porque deseje qualquer mal ao Brasil e sim porque vencer copas do mundo fortalece o futebol. E fortalecer o futebol, significa fortalecer a miséria, a falta de cultura e a alienação, significa dar mais atenção ao Circenses para que ninguém se lembre do Panem.

O chato

Eu sou chato.

Sabe aquela pessoa que não dá aquela risada maldosa quando vê você fazendo algo errado ? Pois é sou eu. Saca aquele cara que entra num papo chatíssimo quando você diz que fulano cometeu um crime e deve morrer. Pois é, eu de novo.

Sou chato porque gosto.

Gosto de ser uma voz tentando trazer à razão quem recorre à violência por já ter sofrido demais. Uma voz chata eu sei. Gosto de criticar quando você joga um papel no chão, e saio dizendo que é por todo mundo fazer isso que a cidade tá imunda. Meu como eu sou chato!

Gosto de dizer que ao invés de comprar coisas caras inúteis esse dinheiro traria muito mais felicidade, se você comprasse livros de estudo, ou móveis para aquela instituição de crianças carentes perto de sua casa. É só dar uma visitadinha de vez em quando.
Gosto de defender que nossas atitudes pessoais é que geram as coletivas, e um pequeno gesto influencia muita gente. E de lembrar que se você usa a força com alguém, isso não vai ajudar ou “ensinar’ aquela pessoa para que ela não faça mais a atitude errada que ela fez. Só vai piorá-la. Cara isso aqui é chato pacas de ler.

Gosto de lembrar que criminosos não nascem ruins. Eles se tornam ruins. Gosto de lembrar que se você se incomoda com um homossexual do seu lado, você deve ter algo de homosexual, porque a muita gente não incomoda nada. Essa foi irritante né ?

Mas alguém tem que ser o chato. O que seria das pessoas legais se não fosse os chatos ? Elas teriam ser muito mais legais para que os “menos legais” fossem considerados chatos. Então até para lhes poupar esse trabalho, essa é minha função. Ser chato.

O chato é aquele cara que te lembra que você anda bebedo demais. E que você tem que parar de enrolar e fazer algo de sua vida. Ele não é aquela pessoa legal, que sempre te ouve, e te consola entendendo o quanto você é sofredor. Ele às vezes diz que a culpa é tua. Que cara chato! Quem ele pensa que é ? Se não quer ajudar não atrapalha né ?

No mínimo ele fica em silêncio, mas todo mundo que o conhece um pouco sabe o que ele está pensando.

Quando você comenta daquela menina gata, ele lembra da sua namorada! Fala sério! Quando você se gaba das suas 3 namoradas ele pergunta se você não se importa com o que elas vão sentir quando descobrirem.

E ele nem ficou com uma morena espetacular só porque ela disse que odiava ler! Meu esse cara é um saco! Vai morrer sozinho.

E ele ainda acredita em cada besteira. Não ri e acha errado, piadas religiosas. Entende que todas as linhas espirituais precisam ser respeitadas. Que fanatismo também é errado. E que todo conhecimento espiritual não pode estar em um só livro. Meu não dá pra aguentar. Que saco. Ele pode até ir pro inferno por falar assim. Deus vai castigar.

Po não é muito mais legal quando uma pessoa é flexível, e você sabe que ela não vai criticar as coisas erradas que você faz ? Essa pessoa tem bem mais amigos. Vai em mais festas, se diverte muito mais. O telefone dela toca muito mais. Ela é muito mais popular.

Pois é eu sou esse chato. Mas sei lá, cada vez eu me convenço mais que esses valores estão meio invertidos.

Interesse

O conceito de interesse envolvendo todas as relações humanas me parece originar de uma perspectiva pessoal ruim. Parece-me que quando alguém faz mau juízo de seu interior tende a espelhar isso em outras pessoas. Mau juízo que se cria por nossos maus costumes modernos.
Sempre defendi a idéia de que existem atitudes completamente desinteressadas. O argumento contrário a esta idéia diz que, mesmo que esta atitude seja aparentemente desinteressada, ainda assim esperamos benefícios, às vezes metafísicos, às vezes recompensas póstumas, ou relacionadas a obtermos um contentamento interno. Todas formas mais ou menos diretas de interesse.
A chave para a análise destes comportamentos me parece ser se o pensamento a respeito da recompensa veio antes ou depois da atitude em si, ou seja, se a atitude provém do pensamento na recompensa, ou se o pensamento da recompensa veio como uma consequência da atitude depois de realizada.
E de onde provém a atitude se não de um interesse ?

Devido à vida cada vez mais voltada ao lado material, parece que nos esquecemos do sentimento natural do gostar de outros seres humanos. Gostar naturalmente, sem precisar de nada deles. O fato é que nossa vida excessivamente agitada, nos leva a pensar nas nossas necessidades imediatas, em resolver os problemas, depois outros problemas, depois problemas dos outros, e como este processo cria em nós necessidades contínuas e crescentes, cria-se uma cultura que vem do berço de satisfação das necessidades, e com isso a busca de soluções para atendê-las.

Ao entrarmos nesse ciclo vicioso, nossas amizades e relações pessoais em geral sempre buscam resolver alguma necessidade específica, financeira, moral, pessoal e outras.

Assim acabamos nos acostumando com a questão do interesse nas relações. Esquecemo-nos do tempo em que olhavamos para as pessoas sem querer nada delas, mas com a curiosidade natural de criança que olha para alguém e fala, brinca, interage sem qualquer interesse. Acabamos hipocritamente unindo necessides com emoções, muitas vezes inventadas, ou às vezes até enganando a nós mesmos que realmente queremos aquilo para atender uma necessidade que, devido ao costume, se tornou quase inconsciente.

Perceber que além de relações de interesse, pode e deve existir um gostar legítimo, primário, puro, está se tornando cada vez mais raro. Mas ainda hoje podemos encontrar quem o defenda ardorosamente. Senão vejamos: fala-se tanto que o dinheiro move o mundo. Mas o que realmente move o mundo são as relações de afeto entre as pessoas. Como ficaria o mercado imobiliário se as pessoas não mais casassem ? E o mercado de entretenimento sem crianças ? E porque temos crianças, se elas são financeiramente o pior investimento que podemos fazer ?
Só me resta concluir que é por causa daquela velha palavrinha. Aquela que é careta, antiquada, fora-de-moda e até nos parece meio idiota de pronunciar. Preciso dizer qual é ?