2 + 2 = 22

Esses dias vi um curta chamado “Matemática alternativa” onde uma professora era criticada por ensinar a um aluno que 2+2=4 quando o aluno dizia que era 22. No vídeo, gerou-se um movimento de defesa do aluno com especialistas mostrando que 2+2 pode ser 22 e criticando a professora por ser radical. A professora acaba demitida mas tem sua vingança no final quando vão fazer as contas da demissão e ela em direito a 2 parcelas de U$ 2.000,00. Nesse momento a professora exige U$ 22.000,00.
O sentido do vídeo é óbvio: criticar quem diz que tudo é relativo e “provar” que existem coisas perenes.
Embora esse conceito certamente encontra eco na mente de muitos, há muito perigo em se encarar as coisas dessa forma e há várias falácias nesse vídeo.
Em primeiro lugar está se enxergando as coisas da perspectiva das áreas STEM (acrónimo em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática), que vêm sendo historicamente mais valorizadas academicamente gerando assim um preconceito em relação a outras áreas. Essas áreas são chamadas de exatas porque seus conceitos são passíveis de provas exatas e objetivas como a pergunta em questão.
Outras áreas entretanto não têm essa característica. Como aplicar objetividade ou exatidão à discussão do que é beleza ou arte ? Como trabalhar de forma objetiva e exata no entendimento dos processos internos pessoais ? Ao contrário das ciências exatas, esses campos de conhecimento são estruturalmente subjetivos.
Mas podemos encontrar relativização de conceitos mesmo dentro das ciências exatas, mesmo dentro da matemática. Se por exemplo colocarmos em uma planilha eletrônica em duas células separadas o valor 1,99999, somarmos as duas células e formatarmos o arredondamento pra inteiros, chegamos no valor 4 a partir de 2 números que não são 2. 2 + 2 pode ser 22 se considerarmos o “2” como símbolo ou figura. Se apenas retirarmos o conceito de atribuição de valor ao símbolo “2”, a soma passará a ser sim 22. Porque ele passará a ser uma mera figura. Quanto é  ∗ + ∗ senão ∗∗? Uma figura mais outra é igual a 2 figuras.
Então para “provarmos” nossos conceitos perenes precisamos manter a mente fixa na perspectiva que foi moldada em nós desde que nascemos e/ou utilizarmos réguas de medida que cabem somente em casos específicos de certas áreas do conhecimento. Por causa desse molde, nos mantemos muitas vezes a vida toda em um mundo restrito ao que conhecemos e deixamos a “coisas estranhas” pra lá. Isso limita nosso pensamento e quanto maior for o aumento populacional, mais o mundo parecerá “degenerado”, mas é o mundo que está degenerado ou somos nós que sempre recusamos a expansão mental a partir da convivência com o diferente e portanto não conhecemos o que o mundo realmente é ?
Infelizmente essa visão com antolhos passa a ser para muitos o parâmetro do que é correto. Já é suficientemente ruim quando alguém tem essa visão e quer viver assim porque impede sua própria evolução. Mas quando se soma a essa equação a dificuldade de conviver com pessoas que pensem diferente ou o fanatismo religioso, as coisas tendem a piorar rapidamente. O discurso que pra alguns é somente “não gostar” quando propagado entre quem pensa igual, encontra facilmente acolhida em mentes radicais que muitas vezes chegam à ação. Quantas pessoas nós conhecemos que são introspectivas e tendem a explodir facilmente ? Essas pessoas alimentadas pelo discurso de quem não é “tão radical”, chegam muitas vezes a cometer atos no nível da barbárie. E depois quem está em um discurso menos radical diz: “Mas não precisava disso, assim é demais”. Mas na hora de alimentar o discurso estava lá, dando o combustível que aquele ato terrível precisava.
Então ao ver aquele vídeo meu sentimento foi dúbio porque eu entendo a necessidade de se ver a realidade e não se deixar levar por fantasias ou por relativismos não embasados. Seguir por esse caminho é se iludir e dar margem pra todo o tipo de charlatanismo e não valorizar o estudo e a ciência. Mas por outro lado é preciso muito cuidado para que essa busca pelo real não seja apenas uma visão estreita da realidade. É preciso estar aberto para possibilidades que inicialmente pareceriam fora da realidade ou nocivas. É preciso encarar idéias novas com interesse e com espírito de descoberta. Em especial é preciso fazer um esforço para entender o que está sendo dito e se os conceitos que nos embasamos não são mera ignorância ou às vezes manipulação de quem detém o poder. Porque muitas vezes o preconceito, a ignorância e a padronização interessa a muitos porque permite a manipulação.
Encarar a vida com leveza, dar a todos a liberdade para que sejam como quiserem, permitir-se conviver com conceitos diferentes dos seus, encarar coisas diferentes com interesse e se esforçar por ampliar sua mente, cultura e conhecimento é a receita para uma vida mais plena e para a diminuição de boa parte do sofrimento no mundo.

Um comentário em “2 + 2 = 22

  1. Miguel Neto

    A melhor forma de encarar a vida com leveza é encarando que há certas coisas que são verdades perenes.
    Há muitos filósofos de poltrona: negam a realidade, tudo é relativo, o homem é uma criação da sociedade, a justiça é uma convenção mutável, dizem.
    Mas então ele pega o carro, para na padaria, compra um refrigerante por R$ 7,00 e leva para casa, onde beberá com a mulher e os filhos. Ora, esse fato corriqueiro contradiz tudo o que ele “prega”: ele pagou o preço justo pelo sorvete; ele considera que o sorvete é real; está pensando na família… não me parece que os filósofos de poltrona morem na Lua, ou Marte. Estão na Terra, e partilham da mesma chuva e do mesmo sol que o mais ignorante dos homens. Pagam os mesmos impostos, enfrentam o mesmo trânsito e, enfim, têm uma vida normal. Não vivem aquilo que pregam, porque simplesmente é impossível viver no relativismo absoluto (perdoem-me o paradoxo).
    Parece que ninguém consegue perceber que o pensamento filosófico está quase completamente dissociado da realidade. O relativismo é o “dogma” do século XIX, XX e pelo visto do XXI.
    Há conhecimentos mutáveis… e outros que não são mutáveis. E todos eles apontam para verdades profundas do ser humano, que é justamente o conhecimento da verdade. Quem vai ao médico quer sabe “a verdade”. Quem é traído pelo cônjuge quer saber “a verdade”. Quem é julgado por um crime que não cometeu quer que os julgadores saibam “da verdade”.
    Será que isso é radicalismo meu? Ou será que o discurso de que “tudo é relativo” deve ser dogmatizado a todo custo?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *